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40% dos casos de câncer no mundo poderiam ser evitados, revela novo estudo da OMS

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Photo by National Cancer Institute on Unsplash

Análise inédita publicada na Nature Medicine mostra que 7 milhões de diagnósticos em 2022 estavam ligados a fatores preveníveis; tabagismo lidera ranking de riscos, seguido por infecções e álcool

Um estudo global divulgado nesta segunda-feira (3) pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC) traz dados que reforçam o papel central da prevenção no combate ao câncer: quase 40% dos casos diagnosticados no mundo estão associados a fatores de risco que poderiam ser evitados ou controlados.

A análise, publicada na prestigiada revista científica Nature Medicine às vésperas do Dia Mundial do Câncer — a ser celebrado nesta quarta-feira (4/2) —, avaliou 36 tipos de tumor em 185 países e concluiu que 37,8% dos 18,7 milhões de novos casos registrados em 2022 (aproximadamente 7 milhões de diagnósticos) estão relacionados a causas preveníveis como tabagismo, consumo de álcool, obesidade, infecções, poluição do ar e exposição excessiva à radiação ultravioleta.

“Esta é a primeira análise global a mostrar quanto do risco de câncer decorre de causas que podem ser prevenidas”, afirmou André Ilbawi, líder da equipe de Controle do Câncer da OMS e um dos autores do trabalho. “Ao examinar padrões entre países e grupos populacionais, podemos oferecer a governos e indivíduos informações mais específicas para ajudar a prevenir muitos casos de câncer antes mesmo de eles surgirem.”

Tabagismo ainda é o grande vilão

O cigarro segue como o principal fator de risco evitável em escala mundial, responsável por 15,1% de todos os novos casos de câncer, equivalente a mais de 3,3 milhões de diagnósticos apenas em 2022.

Para Carlos Gil Ferreira, diretor médico da Oncoclínicas e presidente do Instituto Oncoclínicas, esse dado reforça um alerta que permanece urgente. “O tabagismo responde por uma parcela enorme dos casos de câncer de pulmão, laringe, boca, esôfago, bexiga e pâncreas. É uma catástrofe de saúde pública que persiste no mundo e no Brasil, apesar dos avanços que já conseguimos. E agora temos uma nova ameaça: o cigarro eletrônico, que vem ganhando terreno especialmente entre os jovens”, afirma.

Logo após o tabaco aparecem as infecções relacionadas ao desenvolvimento de tumores, como HPV, hepatite B e a bactéria Helicobacter pylori, responsáveis por 10,2% dos casos (cerca de 2,3 milhões). O consumo de álcool vem na sequência, associado a 3,2% dos diagnósticos (aproximadamente 700 mil novos casos).

Outros fatores relevantes incluem obesidade, sedentarismo, poluição atmosférica, radiação solar e exposição ocupacional a substâncias cancerígenas.

Inovação metodológica: infecções entram na conta

Uma das principais novidades do estudo foi a inclusão sistemática, pela primeira vez, de nove infecções associadas ao câncer na análise de fatores evitáveis. A metodologia representa um avanço em relação a levantamentos anteriores que focavam predominantemente na mortalidade e não contemplavam agentes infecciosos de forma estruturada.

“Ao todo, os pesquisadores examinaram 30 fatores de risco modificáveis, ou seja, aqueles que podem ser alterados por meio de mudanças comportamentais, políticas públicas ou intervenções de saúde”, comenta o diretor médico da Oncoclínicas.

Três tipos de câncer concentram metade dos casos evitáveis

O estudo identificou que três tumores respondem por quase metade de todos os casos evitáveis no planeta: pulmão, estômago e colo do útero.

O câncer de pulmão lidera com aproximadamente 1,8 milhão de casos atribuíveis a fatores preveníveis, sendo o tabagismo o principal responsável, especialmente entre os homens, nos quais mais de dois terços dos diagnósticos estão diretamente ligados ao cigarro. Entre as mulheres, além do tabaco, a poluição do ar tem peso expressivo, respondendo por mais de um quarto dos casos evitáveis.

O câncer de estômago aparece em seguida, com mais de 780 mil casos associados a causas preveníveis, sendo a maioria relacionada à infecção pela bactéria H. pylori. Já o câncer de colo do útero registra cerca de 660 mil casos, dos quais mais de 90% são atribuídos à infecção pelo HPV, um vírus totalmente prevenível por vacinação.

“Esses três tipos de câncer mostram claramente onde os investimentos em prevenção podem ter maior impacto. Políticas antitabagismo rigorosas, ampliação da vacinação contra HPV e hepatite B, e programas de rastreamento para H. pylori podem salvar milhões de vidas”, analisa Carlos Gil.

Homens são mais afetados que mulheres

O levantamento revela diferenças marcantes considerando o recorte por gêneros. Entre os homens, 45,4% dos novos casos de câncer estão ligados a fatores evitáveis, enquanto entre as mulheres esse percentual cai para 29,7%.

Nos homens, o tabagismo é o principal responsável, associado a cerca de 23% dos diagnósticos. Em seguida aparecem as infecções (9%) e o álcool (4%). Já entre as mulheres, as infecções lideram como fator de risco (11% dos casos), seguidas pelo tabagismo (6%) e pelo excesso de peso (3%).

“O perfil diferente entre homens e mulheres exige estratégias de prevenção também diferenciadas. Para elas, investir em vacinação e rastreamento tem enorme potencial. Para eles, o combate ao tabagismo continua sendo a prioridade número um”, comenta o oncologista.

Abismo regional expõe desigualdades globais

As disparidades geográficas são igualmente marcantes. Entre as mulheres, a proporção de cânceres evitáveis varia de aproximadamente 25% no Norte da África e no Oeste da Ásia até mais de 38% na África Subsaariana. Entre os homens, o percentual chega a 57% no Leste Asiático, enquanto na América Latina e no Caribe fica em torno de 28%.

“Enfrentar essas causas evitáveis é uma das formas mais eficazes de reduzir a carga global do câncer”, afirmou Isabelle Soerjomataram, vice-chefe da unidade de vigilância do câncer da IARC e coautora do estudo.

Segundo os pesquisadores, essas variações refletem tanto padrões distintos de exposição a riscos quanto desigualdades no acesso a vacinação, saneamento básico, ambientes de trabalho seguros e políticas eficazes de prevenção.

O estudo destaca ainda que, em regiões mais desenvolvidas como América do Norte e Europa, ganham destaque fatores ligados ao estilo de vida — obesidade, sedentarismo, álcool e tabagismo. Já em países de baixa e média renda, as infecções permanecem como principal ameaça, especialmente para as mulheres, respondendo por mais de 30% dos casos na África Subsaariana.

Desafio brasileiro: prevenção e acesso

No Brasil, onde o Instituto Nacional de Câncer (INCA) divulga nesta terça-feira as estimativas de incidência para o triênio 2026-2028, os dados da OMS reforçam a urgência de políticas públicas robustas.

“Temos um programa nacional de imunizações bem estruturado, mas é preciso ampliar a cobertura vacinal, especialmente contra HPV. Isso exige investimento, logística eficiente e combate à desinformação dos movimentos antivacina, que fazem um desserviço à saúde pública”, alerta Carlos Gil.

O especialista destaca ainda que o Brasil enfrenta desafios em múltiplas frentes: enquanto regiões mais desenvolvidas lidam com cânceres típicos de países ricos (ligados a obesidade e estilo de vida), o Norte e Nordeste ainda enfrentam tumores relacionados a condições básicas de saneamento e acesso limitado a vacinas.

Prevenção como estratégia mais eficaz

Para os autores do estudo, os resultados demonstram que os maiores avanços na redução da mortalidade por câncer nas últimas décadas vieram menos de novos tratamentos e mais da diminuição da exposição a fatores de risco, como a queda do tabagismo em alguns países e a ampliação da vacinação contra vírus associados à doença.

“Estamos vivendo um momento paradoxal. Por um lado, nunca tivemos tantos avanços em tratamentos oncológicos — imunoterapia, terapias-alvo, medicina de precisão. Por outro, continuamos vendo milhões de casos que poderiam simplesmente não existir se investíssemos adequadamente em prevenção”, pondera Carlos Gil.

O oncologista ressalta que medidas como controle rigoroso do tabaco, ampliação vacinal, redução da poluição atmosférica e promoção de hábitos saudáveis podem evitar milhões de diagnósticos e mortes, além de poupar recursos dos sistemas de saúde.

Os pesquisadores, por sua vez, alertam que, sem ações mais contundentes, a carga global de câncer tende a crescer nas próximas décadas, acompanhando o envelhecimento populacional e a disseminação de hábitos pouco saudáveis. O estudo reforça que o enfrentamento do câncer exige integração entre prevenção primária, diagnóstico precoce e acesso equitativo a tratamentos, tanto entre países quanto dentro deles.

“Projeções da OMS já indicavam que o mundo deve registrar 35 milhões de novos casos anuais até 2050, um salto de 77% em relação a 2022. A mensagem é clara: precisamos agir agora. Cada caso evitável representa não apenas um número, mas indivíduos com mais qualidade de vida e um sistema de saúde menos sobrecarregado. A prevenção não é apenas a estratégia mais humana, é também a mais econômica e eficiente”, conclui Carlos Gil Ferreira.

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