O Brasil acaba de lançar um pacote de incentivos fiscais que pode destravar até R$ 2 trilhões em investimentos em infraestrutura digital na próxima década
Por Daniel Bichuetti, co-CEO e CTO da Forlex
Todo mundo está falando da corrida por data centers. O Brasil acaba de lançar um pacote de incentivos fiscais que pode destravar até R$ 2 trilhões em investimentos em infraestrutura digital na próxima década. Microsoft comprometeu US$ 2,7 bilhões, AWS outros US$ 1,8 bilhão. Alibaba Cloud confirmou seu primeiro data center no país. O mercado brasileiro de data centers, avaliado em US$ 2,95 bilhões em 2025, deve chegar a quase US$ 6 bilhões até 2030.
Mas quase ninguém está falando do que acontece depois que o data center está de pé.
O problema do Day Two
A demanda explodiu — IA, nuvem, streaming, serviços financeiros — e quem não tiver capacidade de processamento vai simplesmente ficar para trás. Data center, porém, não é Lego. É investimento pesado, energia cara, infraestrutura complexa e decisões que precisam fazer sentido no longo prazo.
E há um ponto crítico nessa equação que poucos estão mapeando: o ciclo de vida das máquinas. A NVIDIA lança novas arquiteturas de GPU a cada 18 a 24 meses. GPUs de data center, que custam acima de US$ 50 mil por unidade, sofrem depreciação acelerada a cada novo ciclo. Satya Nadella, CEO da Microsoft, resumiu o dilema publicamente: “Eu não queria ficar preso a 4 ou 5 anos de depreciação em uma única geração.”
O dado é revelador: as hyperscalers (AWS, Google, Microsoft, Meta) estenderam a vida útil contábil dos servidores de 3–4 para 6 anos — uma manobra que coletivamente reduz a depreciação anual em cerca de US$ 18 bilhões. Não porque os equipamentos duraram mais, mas porque a conta ficou insustentável. Na prática, servidores em data center perdem em média 50% do valor de revenda por ano de uso. Um ativo comprado hoje pode valer uma fração disso em poucos anos — não porque deixou de funcionar, mas porque ficou obsoleto frente às novas exigências de eficiência e performance.
Mercado secundário: de detalhe a estratégia
É nesse ponto que o mercado secundário deixa de ser nota de rodapé e vira estratégia. Cerca de 30% dos servidores em data centers globais estão “em coma” — ligados, consumindo energia, sem fazer trabalho útil. São aproximadamente 10 milhões de máquinas ociosas, imobilizando dezenas de bilhões de dólares. O setor global de IT Asset Disposition (ITAD) — a cadeia de revenda, realocação e descarte inteligente de hardware — já movimenta cerca de US$ 29 bilhões em 2025 e cresce aceleradamente.
Modelos mais sofisticados já operam o que se chama de “value cascade”: GPUs são usadas para treinamento de IA nos primeiros 2–3 anos, realocadas para inferência nos anos seguintes, e depois redirecionadas para processamento em lote. A CoreWeave, por exemplo, reporta que
H100s de contratos expirados são recontratados a 95% do preço original. O hardware não morre — ele muda de função.
O que isso significa para o Brasil
O Brasil está atraindo investimentos bilionários em infraestrutura digital. Isso é positivo. Mas a maturidade do ecossistema vai ser medida não só pela velocidade de construção, mas pela inteligência na gestão do ciclo de vida desses ativos. Quem planeja revenda, realocação e reaproveitamento desde o dia um constrói um negócio sustentável. Quem trata hardware como custo afundado vai queimar caixa.
Isso vale especialmente para quem opera IA em escala — inclusive em setores como o jurídico, onde a demanda computacional cresce exponencialmente, mas os orçamentos não acompanham. A decisão sobre qual infraestrutura usar, quando trocar e como reaproveitar não é um detalhe operacional. É estratégia de negócio.
A corrida por data centers não é só sobre quem constrói mais rápido ou maior. É sobre quem entende que tecnologia também é ativo financeiro — que perde valor rápido, mas pode gerar caixa se for bem gerido.
