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Allianz Trade alerta para avanço das insolvências corporativas na América Latina e vê impacto imediato no Seguro de Crédito

Luca Moneta, economista sênior de Mercados Emergentes e Risco-País da Allianz Trade, e de Felipe Tanus, diretor de Crédito da Allianz Trade no Brasil / Foto: Divulgação
Luca Moneta, economista sênior de Mercados Emergentes e Risco-País da Allianz Trade, e de Felipe Tanus, diretor de Crédito da Allianz Trade no Brasil / Foto: Divulgação

Em webinar com jornalistas sobre o Country Risk Atlas, economistas da Allianz Trade destacaram desaceleração do PIB brasileiro, crédito corporativo mais pressionado e manutenção de juros elevados como fatores que sustentam risco de insolvência em 2026, com melhora mais visível apenas em 2027

A Allianz Trade no Brasil reuniu jornalistas nesta terça-feira (24) para apresentar os principais dados do Country Risk Atlas, relatório trimestral da Allianz Research que avalia perspectivas macroeconômicas, oportunidades e riscos em 83 países, cobrindo cerca de 94% do PIB global. O principal alerta para a região, no entanto, ficou concentrado na América Latina: segundo os especialistas, as insolvências corporativas devem continuar em alta ao longo de 2026, com melhora mais consistente esperada apenas em 2027.

O encontro contou com a participação de Luca Moneta, economista sênior de Mercados Emergentes e Risco-País da Allianz Trade, e de Felipe Tanus, diretor de Crédito da Allianz Trade no Brasil, que também detalhou, ao fim do webinar, os efeitos desse cenário para o Seguro de Crédito, uma das especialidades da companhia.

Atlas global mostra melhora em vários países, mas com riscos “abaixo da superfície”

Na abertura da apresentação, Luca Moneta explicou que esta é a terceira edição do atlas e reforçou que o estudo usa um modelo proprietário, atualizado trimestralmente, com dezenas de indicadores de curto e médio prazo.

Segundo ele, a leitura global mostra mais melhoras do que deteriorações nas classificações de risco-país, mas isso não elimina fragilidades relevantes. “Há riscos subestimados na superfície”, afirmou, ao destacar que o relatório busca justamente captar essas vulnerabilidades em um ambiente de “policrises” e volatilidade persistente.

Moneta também chamou atenção para o peso econômico de países com deterioração de risco, mesmo quando numericamente eles são minoria. Na visão do economista, isso exige cautela adicional de empresas exportadoras e investidores, especialmente em cadeias integradas ao comércio internacional.

Brasil: crescimento moderado, inflação ainda resistente e crédito mais restrito

Para o Brasil, a Allianz Trade apresentou projeção de crescimento do PIB de 2,2% em 2026, com ritmo semelhante em 2027, abaixo da média latino-americana e da média global. Moneta apontou que a economia brasileira segue com motores importantes, mas também com freios relevantes, principalmente ligados ao ambiente financeiro. “Estamos relativamente em linha com o consenso quando se trata da economia brasileira para este ano, com um aumento de 2,2% para 2026 e também para 2027”, projetou.

No campo inflacionário, o economista destacou que a inflação segue como um ponto de atenção no Brasil, ainda em patamar elevado para padrões internacionais. Ao mesmo tempo, apontou que a dinâmica de crédito já mostra desaceleração no financiamento para famílias e empresas não financeiras, o que tende a pesar sobre a atividade. “Nos últimos meses, o crédito para as famílias e o crédito para as corporações não financeiras reduziu, ou não cresceu como no passado recente. Isso também, é claro, tem efeito no crescimento do PIB”, completou.

América Latina entra no radar por avanço das insolvências em 2026

O ponto de maior destaque do webinar foi o painel sobre insolvências. Moneta explicou que a Allianz Trade compara o nível de insolvências por país com a tendência histórica e com a variação anual mais recente. No caso brasileiro, o diagnóstico foi de pressão acima do normal. “Particularmente para o Brasil, este nível já superou o nível histórico, o nível pré-pandemia, e em termos anuais isso aumentou muito no ano passado, em torno de 18%”, pontuou.

Na leitura regional, a Allianz Trade projeta que a maior parte dos países deve ver queda ou estabilização das insolvências, mas com exceções relevantes. “Particularmente o Centro e Leste Europeu e também a América Latina ainda verão um pico neste ano, em 2026, e melhora apenas em 2027”, diagnosticou Moneta.

Entre os fatores citados para o Brasil e para a região estão condições financeiras ainda apertadas, custos de endividamento elevados, menor suporte de preços de commodities em alguns segmentos e limitações de política econômica para amortecer choques.

Juros altos continuam pressionando margens e caixa das empresas

Moneta ressaltou que, mesmo com expectativa de corte da Selic ao longo de 2026, o patamar de juros reais no Brasil continua elevado e segue pesando sobre as empresas. “Uma taxa de juros em torno de 12% no fim do ano ainda seria um nível relevante. Isso continua sendo um custo para as empresas”, indicou ao sinalizar que a política monetária restritiva já vem afetando a economia há cerca de dois anos.

O economista sênior de Mercados Emergentes e Risco-País da Allianz Trade também destacou a defasagem entre a melhora da política monetária e os efeitos concretos na economia real. “Os efeitos na economia real veremos apenas em 2027, não veremos eles este ano”, revelou.

Já Felipe Tanus reforçou esse ponto e destacou que a tendência de queda dos juros não elimina o aperto financeiro sobre as companhias em 2026. “Ainda que haja uma perspectiva positiva de redução de taxa de juros, temos uma taxa de juros extremamente alta no Brasil de qualquer forma, o que continua trazendo bastante despesa financeira, custos de endividamento para essas empresas e, consequentemente, margens mais pressionadas”, complementou.

Seguro de Crédito sente impacto imediato com avanço das recuperações judiciais

Na parte final do webinar, Felipe Tanus respondeu diretamente sobre os impactos do avanço das insolvências no Seguro de Crédito e foi objetivo ao afirmar que o efeito é imediato para o produto. “O impacto para o seguro de crédito é imediato”, acrescentou.

Segundo o executivo, isso ocorre porque o clausulado da Allianz Trade prevê tratamento específico para casos de recuperação judicial, com prazo de indenização mais curto do que em situações de mora prolongada. “No caso de uma recuperação judicial, a gente indeniza o segurado em 30 dias do deferimento da recuperação judicial, enquanto que numa mora prolongada esse prazo de indenização pode chegar até 180 dias”, explicou.

Tanus afirmou que esse desenho contratual altera as projeções de sinistralidade da seguradora, embora a companhia trabalhe com monitoramento intenso para mitigar perdas severas. “Para a seguradora, isso traz impacto nas projeções, no forecast de sinistralidade para o ano, ainda que de maneira bem controlada”, tranquilizou.

O executivo acrescentou que a atuação preventiva vem ajudando a companhia a atravessar o ciclo de juros altos. “A gente tem uma atividade de monitoramento bem intensa de crédito que nos permite mitigar perdas severas. É o que a gente já tem visto desde 2025. Mesmo com uma Selic tão alta, a nossa sinistralidade de 2025 foi a mais baixa do mercado”, celebrou.

Exportadores brasileiros devem diversificar mercados e reforçar análise de risco

Outro tema discutido no encontro foi a adaptação dos exportadores brasileiros diante de mudanças no ambiente internacional de risco, incluindo tarifas e reorganização de fluxos comerciais. Moneta e Tanus defenderam, em linhas gerais, a estratégia de diversificação geográfica e reforço da avaliação de risco de compradores e países. “Uma estratégia é, definitivamente, a diversificação, abrindo para outras geografias e fortalecendo a presença em mercados altamente demandantes de produtos brasileiros”, mencionou Moneta.

Tanus sublinhou que o cenário recente já trouxe uma “lição de casa” para o Brasil. “A tarifação divulgada pelos Estados Unidos no ano passado já nos trouxe, como país, uma grande lição de casa a ser feita em termos de diversificação de parceiros comerciais na exportação”, disse. Segundo ele, mercados asiáticos, com destaque para China e Indonésia, seguem como parceiros relevantes para compensar parte dos impactos externos.

Cenário ainda positivo para o Brasil, mas com cautela redobrada nas insolvências

Apesar do alerta para insolvências e do ambiente de juros elevados, Moneta encerrou a apresentação com avaliação relativamente positiva sobre o Brasil no curto prazo, citando crescimento ainda moderado e maior pragmatismo na condução econômica. O economista, porém, deixou uma recomendação clara para empresas e investidores. “Cuidem-se, de novo, das insolvências, porque elas permanecerão conosco por mais tempo e condicionam vários setores”, finalizou.

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