Quais são os principais desafios e perspectivas para o mercado de capitais brasileiro dentro de um cenário global complexo? Para debater essa questão, a Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) e a B3, a bolsa do Brasil, reuniram nesta terça-feira (07), em São Paulo, lideranças das principais instituições financeiras, acadêmicos e imprensa especializada para mais uma edição do MKBR.
Ao longo do evento, os painéis debateram o papel das instituições no desenvolvimento do mercado, perspectivas para captação de recursos e possíveis caminhos para os fluxos de capital para mercados emergentes, como o Brasil, no atual cenário global. O MKBR 26 criou, mais uma vez, um espaço qualificado para a troca de perspectivas sobre os impactos da conjuntura na economia brasileira, refletidos na oferta e precificação de ativos e nas decisões de investidores institucionais e pessoas físicas.
Na abertura do evento, Carlos André, presidente da ANBIMA, e Gilson Finkelsztain, CEO da B3, no painel “O que pensam as lideranças”, reforçaram a importância de uma maior previsibilidade no ambiente de negócios e de uma infraestrutura capaz de apoiar o financiamento da economia e ampliar o acesso ao mercado de capitais.
Nesse contexto, o CEO da B3 destacou diferentes números que demonstram a sofisticação do nosso mercado, como o crescimento dos ETFs (fundos de índice) no Brasil, que já superam R$ 100 bilhões em estoque, com 187 produtos listados e mais de 770 mil investidores; dos fundos imobiliários, que já superam 3 milhões de investidores; e do Tesouro Direto, com 3,4 milhões. Para Gilson Finkelsztain, a trajetória recente mostra que o setor ganhou profundidade, diversidade e demonstra cada vez mais sua capacidade de adaptação.
“Nos últimos oito anos, o mercado de capitais brasileiro passou por uma evolução extraordinária, impulsionada pela digitalização, educação financeira e ampliação do acesso. Hoje, vemos uma indústria mais sofisticada, com mais de R$ 600 bilhões em emissões de renda fixa corporativa anuais, colocando em posição de protagonismo um mercado que, décadas atrás, praticamente não existia. O mercado de ações, embora o investidor local se mantenha cauteloso devido aos juros altos, é impulsionado por um notável fluxo estrangeiro. Essa realocação global vê o Brasil como atrativo, gerando otimismo para a reabertura da janela de IPOs”, afirmou o CEO da B3.
Durante a conversa, Carlos André, presidente da Anbima, ressaltou o amadurecimento do mercado local, especialmente no crédito privado, e a importância de manter um ambiente regulatório estável e funcional para que essa evolução continue. Ao longo do painel, destacou que o fortalecimento do mercado secundário, a formação mais eficiente de preços e a maior liquidez vêm contribuindo para ampliar o acesso de emissores e investidores, inclusive em novos segmentos e instrumentos. “O mercado ganhou escala, liquidez e capacidade de atender diferentes perfis de emissores e investidores. Para que esse ciclo siga avançando, é importante preservar a estabilidade regulatória, ter previsibilidade e estímulos adequados para ampliar a participação dos investidores institucionais e fortalecer o financiamento de longo prazo”, destacou o presidente da Anbima.
No painel “Mercado de capitais brasileiro em um mundo em transição”, Luiz Masagão, vice-presidente de Produtos e Clientes da B3, Bruno Funchal, CEO da Bradesco Asset Management, e Guilherme Maranhão, sócio e diretor do Itaú BBA, discutiram como o cenário global se traduz em efeitos concretos sobre a economia brasileira. Também abordaram o papel crescente da renda fixa e do crédito privado no financiamento das empresas.
No bloco que debateu alternativas e oportunidades de acesso ao mercado por empresas de menor porte, Masagão ressaltou a evolução de instrumentos como FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios), dívidas estruturadas e a chegada do Regime Fácil. “A simplificação regulatória para ampliação do acesso de pequenas e médias empresas, por meio do Regime Fácil e da iminente implementação das duplicatas escriturais, representa uma vanguarda mundial. Essa inovação, que transforma recebíveis comerciais de pequenas empresas em títulos negociáveis, é crucial para pulverizar as fontes de recursos, promovendo a transição de parte dessa captação do financiamento bilateral para o mercado de capitais”, compartilhou o vice-presidente de Produtos e Clientes da B3.
Na análise sobre um dos setores-chave para a economia brasileira, Maranhão ressaltou o papel do financiamento privado em conjunto com os bancos de fomento. “O mercado de capitais hoje é até maior do que o próprio BNDES como financiador de infraestrutura. Foi fundamental e, olhando o que vem pela frente, ainda vai ser muito importante para a infraestrutura no Brasil – e para a economia real como um todo”.
Geopolítica mundial e eleições brasileiras em debate
A agenda do MKBR 26 também incluiu o painel “Geopolítica no centro do tabuleiro”, com participação de Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas, que trouxe um panorama da transição em curso na ordem internacional, marcada por disputas entre grandes potências, conflitos regionais, reconfiguração de alianças e mudanças nas cadeias de suprimentos e no comércio. A proposta foi conectar esses movimentos às suas consequências sobre as conjunturas política e econômica mundiais.
Encerrando a programação, o painel “O fator eleições” reuniu Carlos Kawall, da Oriz Partners; Lucas de Aragão, da Arko Digital; e Márcia Cavallari Nunes, da Ipsos-Ipec, para uma análise de como as eleições presidenciais de 2026 entram no radar de investidores, empresas e tomadores de decisão.



