Automatização total da declaração do IR; avanços, riscos e impactos para o contribuinte

João Eloi Olenike, Presidente-executivo do IBPT / Foto: Divulgação João Eloi Olenike, Presidente-executivo do IBPT / Foto: Divulgação
João Eloi Olenike, Presidente-executivo do IBPT / Foto: Divulgação

Confira artigo de João Eloi Olenike, Presidente-executivo do IBPT

A proposta anunciada pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, de desenvolver um sistema em que o contribuinte não precise mais elaborar a declaração do Imposto de Renda, limitando-se apenas a confirmar as informações automaticamente importadas de bancos, empresas, planos de saúde e outras fontes, representa uma das maiores transformações na relação entre o Estado e o cidadão em matéria tributária nas últimas décadas.

Embora a ideia seja apresentada como uma simplificação benéfica — e de fato expanda o conceito da atual declaração pré-preenchida, que já atinge cerca de 60% dos declarantes —, ela traz consigo riscos relevantes que merecem ser analisados com cuidado:

Riscos para o contribuinte

O principal risco reside na perda de controle sobre a própria declaração. Ao importar automaticamente praticamente todos os dados, o sistema tende a ser conservador, priorizando a inclusão de rendimentos e, muitas vezes, subestimando ou deixando de capturar deduções legítimas que o contribuinte declararia manualmente (despesas médicas com recibos avulsos, dependentes, educação, carnê-leão, doações, entre outras).

Seguradora ALM
Publicidade

Além disso, eventuais erros ou omissões nas informações enviadas por terceiros (bancos, operadoras de saúde, empregadores) podem gerar declarações incorretas.

O contribuinte que simplesmente “confirma” sem verificação detalhada corre o risco de pagar mais imposto do que deveria ou de ter que retificar posteriormente, com todos os transtornos e possíveis multas decorrentes.

Possibilidade de aumento da Carga Tributária Efetiva

Existe sim essa possibilidade. É razoável prever que esse modelo possa resultar em maior arrecadação sem necessidade de elevação de alíquotas. Ao reduzir o espaço para planejamento tributário e deduções não automatizadas, o sistema tende a ampliar a base tributável média. Estudos internacionais sobre sistemas semelhantes mostram que a automação completa costuma aumentar a arrecadação em 3% a 8% apenas pela redução de “lacunas” declaratórias, sem que o contribuinte perceba claramente o aumento.

Aumento no número de retificações

A experiência com a declaração pré-preenchida já demonstra que quanto maior o grau de automação, maior tende a ser o número de retificações posteriores. O contribuinte muitas vezes só percebe erros ou omissões após a entrega, o que gera mais trabalho tanto para ele quanto para a Receita Federal.

Em um sistema quase integralmente automático, essa tendência deve se acentuar, criando um novo ciclo de correções e um possível congestionamento administrativo.

Maior ingerência do Estado na vida privada

Trata-se, sem dúvida, de um aumento significativo do poder de vigilância do Estado. Com a integração plena de dados bancários, rendimentos, despesas médicas, movimentações empresariais e planos de saúde em uma única plataforma governamental, o Fisco passará a ter visibilidade quase total sobre a vida financeira dos cidadãos.

Esse modelo se aproxima de sistemas de “fiscalização total” já adotados em alguns países asiáticos e europeus, onde o Estado centraliza grande volume de informações pessoais.

No Brasil, com histórico de vazamentos de dados e uso político de informações fiscais, essa concentração de poder merece atenção redobrada sob o ponto de vista da proteção à privacidade e da limitação do poder estatal.

Impacto sobre a profissão contábil

A automatização quase total da declaração do IRPF representará um golpe severo para milhares de contadores que dependem desse serviço como importante fonte de receita. Muitos profissionais que atuam principalmente na elaboração de declarações simples terão que migrar rapidamente para serviços de maior valor agregado, como planejamento tributário, consultoria patrimonial, revisão de declarações complexas e defesa em processos administrativos e judiciais.

Essa transição não será fácil, especialmente para contadores individuais e pequenos escritórios. Espera-se uma redução significativa da demanda por serviços básicos de IRPF, o que pode levar a uma reconfiguração importante do mercado contábil nos próximos anos.

Extraindo-se uma síntese da possível situação, aqui exposta, a proposta de declaração praticamente automática do Imposto de Renda é, ao mesmo tempo, uma evolução tecnológica inevitável e um ponto de inflexão na relação entre cidadão e Estado.

Ela promete simplificação e redução de custos administrativos, mas traz consigo riscos concretos de maior tributação efetiva, perda de deduções legítimas, aumento de retificações, maior ingerência estatal na vida privada e forte impacto sobre a profissão contábil.

É fundamental que a implementação seja acompanhada de salvaguardas claras: direito à contestação fácil e rápida dos dados importados, transparência sobre os algoritmos utilizados, proteção rigorosa de dados e mecanismos que não penalizem o contribuinte por erros de terceiros ou omissões do sistema.

A modernização do sistema tributário é bem-vinda, mas não pode ser feita à custa da autonomia do contribuinte nem da própria essência da declaração como ato de exercício de cidadania fiscal.

Inscreva-se para receber as notícias do mercado!

Ao clicar no botão Assinar, você confirma que leu e concorda com nossa Política de Privacidade e nossos Termos de Uso.
Tokio Marine Seguradora
Publicidade