Dra Sophie Deram, neurocientista do comportamento alimentar, alerta para os impactos físicos, emocionais e culturais da privação alimentar em um dos programas de maior audiência do país
A atual edição do Big Brother Brasil 26 tem provocado discussões que vão além do jogo. A dinâmica entre os grupos “Tá com Nada”, “Xepa” e “VIP”, que determina quem tem acesso à comida, voltou a levantar um tema sensível: os impactos físicos e emocionais da restrição alimentar quando transformada em entretenimento de massa.
Nos últimos dias, uma fala da participante Ana Paula Renault repercutiu nas redes sociais. Durante uma ação com pizza, a sister afirmou que “iria dormir triste se não tivesse comido”, evidenciando não apenas a fome, mas o peso emocional associado ao acesso à comida. Paralelamente, o público passou a comentar sinais físicos como queda de cabelo e baixa imunidade (relatados pela participante durante o programa) frequentemente associados a períodos prolongados de restrição alimentar.
Para a nutricionista e neurocientista do comportamento alimentar Sophie Deram, a situação exige um olhar mais amplo. “A fome não é apenas uma sensação física; ela é um sinal biológico fundamental de sobrevivência. Quando ignorada ou prolongada, o corpo entra em estado de alerta, afetando hormônios, imunidade, energia e até o humor. O problema é quando começamos a normalizar isso como parte de um espetáculo”, explica.
Segundo Sophie, a privação alimentar prolongada pode desencadear uma série de respostas no organismo, como mais fome (esta a resposta mais “óbvia”), aumento do “Food noise” e redução do metabolismo que se traduz em:
- Queda de cabelo
- Redução da imunidade
- Alterações hormonais
- Dificuldade de concentração ou de tomadas de decisão
- Aumento da ansiedade e da irritabilidade
“Do ponto de vista neurocientífico, a fome constante altera o funcionamento do cérebro. A pessoa passa a pensar mais em comida, pode sentir mais dificuldade de tomar decisões e pode desenvolver uma relação mais ansiosa ou compulsiva com a alimentação”, afirma a neurocientista.
O modelo do programa, que associa escassez de comida a desempenho no jogo, também levanta uma questão cultural importante: até que ponto a fome pode ser transformada em entretenimento?
“O risco não está apenas nos participantes, que estão sob supervisão, mas no impacto simbólico disso para quem assiste. O Big Brother Brasil é uma vitrine cultural. Ele influencia comportamentos, discursos e até a forma como as pessoas enxergam a comida e o próprio corpo”, analisa Sophie.

Para ela, existe uma linha tênue entre desafio e normalização de práticas que, fora do contexto televisivo, seriam consideradas preocupantes. “Quando a restrição alimentar é mostrada como estratégia, resistência ou até mérito, corremos o risco de reforçar uma cultura que valoriza o controle extremo da comida, algo que já está na raiz de muitos transtornos alimentares”, alerta.
Outro ponto levantado pela especialista é a associação da comida a prêmio ou punição, uma lógica presente no reality. “Transformar comida em recompensa ou castigo distorce completamente a nossa relação com a alimentação. Comer não deveria ser algo que se ‘merece’, é uma necessidade fisiológica e um direito básico”, afirma.
Para Sophie, o debate que surge fora da casa é tão importante quanto o que acontece dentro dela. “O público tem um papel fundamental. Questionar, refletir e discutir esses temas ajuda a criar uma consciência coletiva mais saudável sobre alimentação”, diz ela.
E faz um alerta direto: “Quando a fome vira entretenimento sem reflexão, o risco não está apenas dentro da casa, ele se espalha para fora dela, moldando percepções, normalizando excessos e influenciando silenciosamente a relação de milhões de pessoas com a comida. E isso, sim, deveria nos preocupar”, finaliza.



