Levantamento do Instituto Brasileiro de Soberania Digital (IBSD) mostra liderança regional em digitalização, mas dependência crítica em infraestrutura estratégica
Mesmo liderando a América Latina em inteligência artificial, inclusão digital e governo eletrônico, o Brasil aparece apenas na 42ª posição no ranking global de maturidade digital, com desempenho particularmente crítico em soberania de dados. O dado é do levantamento recém-lançado pelo Instituto Brasileiro de Soberania Digital (IBSD), que estabeleceu como meta posicionar o Brasil entre as cinco nações mais soberanas do mundo até 2035, em um cenário de crescente disputa geopolítica por dados e tecnologia.
“O Brasil não é atrasado digitalmente. Pelo contrário, é um dos países que mais digitalizou serviços e incluiu sua população no ambiente online. O problema não é acesso – é autonomia”, afirma Thayse Luccheta, diretora executiva do IBSD. “Sem infraestrutura estratégica própria, seguimos expostos em um mundo onde dados, chips e nuvem são ativos geopolíticos”, completa.
No panorama internacional, o Brasil integra o grupo de países classificados como de maturidade “intermediário avançado”, ao lado de economias emergentes que avançaram em digitalização, mas ainda enfrentam fragilidades estruturais. O contraste é evidente quando comparado às nações líderes (como Singapura, Suíça, Dinamarca e Estados Unidos) que operam em um patamar significativamente mais elevado e equilibrado em infraestrutura, capital humano e soberania tecnológica. Dentro da América Latina, o Brasil mantém posição de liderança, à frente de pares como México e Colômbia, mas ainda distante do núcleo das potências digitais globais.
O paradoxo se aprofunda nos números. O Brasil figura entre os 30 países mais avançados do mundo em governo digital, ocupa a 28ª posição no índice global de e-government da ONU, lidera a América Latina em inclusão digital e tornou-se referência internacional com iniciativas como Pix e Open Banking, adotados por mais de 78% da população adulta.
Ainda assim, 88% da infraestrutura de nuvem utilizada no país permanece sob controle de provedores estrangeiros, a participação de cloud soberana nacional é de apenas 12%, a adoção de software livre se limita a 18%, e o Brasil opera com somente 8 centros federais de operações de cibersegurança (SOCs), fragilidades que ajudam a explicar a posição do País, apesar de seus avanços em inovação digital.
“A disputa global hoje não é apenas por mercado, mas por controle tecnológico. O Brasil tem base, tem escala e tem capacidade. O que precisa é transformar digitalização em soberania”, conclui a executiva.
