A projeção de quase 100 mil novos casos anuais de cânceres urológicos em homens resulta da soma das estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para o triênio 2026-2028 que apontam para 77.920 casos de câncer de próstata por ano, aproximadamente 9 mil de câncer de bexiga em homens, entre 6,5 mil e 7 mil de câncer de rim e cerca de 1,8 mil de câncer de testículo. O Instituto de Urologia Oncologia e Cirurgia Robótica (IUCR) alerta que o principal risco é o atraso no diagnóstico, capaz de transformar tumores potencialmente curáveis em doenças avançadas, reforçando a urgência de ampliar o acesso oportuno à investigação e ao tratamento no SUS
Os números mais recentes divulgados pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA) para o triênio 2026–2028 desenham um cenário contundente para a saúde masculina no Brasil. O país deve registrar cerca de 781 mil novos casos de câncer por ano, considerando todas as neoplasias. Entre os homens, o peso maior continuará concentrado em tumores de alta incidência ou elevada letalidade, como próstata, pulmão, cólon e reto e estômago, mas os cânceres urológicos mantêm um papel central nesse panorama.
“Os números reforçam que o câncer seguirá sendo um dos grandes problemas de saúde pública do país”, afirma o urologista e cirurgião oncológico Gustavo Cardoso Guimarães, diretor do Instituto de Urologia Oncologia e Cirurgia Robótica (IUCR) e coordenador-geral dos departamentos cirúrgicos oncológicos da BP. Segundo ele, as estimativas revelam um país em transição epidemiológica, no qual convivem tumores típicos de nações envelhecidas com aqueles ainda associados a desigualdades estruturais e estilos de vida.
“Entre os homens, seguimos lidando com cânceres de países desenvolvidos, como próstata e colorretal, ao mesmo tempo em que pulmão e estômago continuam muito relevantes, especialmente em regiões mais vulneráveis”, observa. Para o especialista, o crescimento absoluto de casos reflete não apenas o envelhecimento populacional, mas também uma melhora parcial da capacidade diagnóstica, ainda longe de ser homogênea no território nacional.
3 entre 10 casos de câncer nos homens ocorre na próstata
O câncer de próstata continua liderando as estatísticas entre os homens brasileiros. De acordo com o INCA, são estimados 77.920 novos casos por ano no triênio 2026–2028, com risco de 74,62 casos a cada 100 mil homens. A permanência no topo, explica Guimarães, é multifatorial. “O envelhecimento populacional é o principal motor, mas não é o único”, afirma. “Existe uma alta frequência biológica desse tumor em homens mais velhos e uma maior detecção por meio do PSA e da investigação clínica, mesmo sem um programa de rastreamento populacional organizado”, acrescenta.
Na prática clínica, porém, o especialista destaca que o problema não se resume ao número absoluto de casos. “Ainda vemos uma divisão muito clara. Uma parte dos pacientes chega cedo, com chance real de cura, enquanto outra chega tardiamente, já com doença avançada e piores desfechos”, diz. Segundo Guimarães, fatores como obesidade, sedentarismo e desigualdade de acesso ao sistema de saúde também influenciam a agressividade da doença. “A obesidade tem se mostrado um fator de risco crescente para tumores de próstata mais agressivos, e isso precisa entrar no radar da saúde pública”.
Ele reforça que a decisão compartilhada segue como princípio central no manejo do câncer de próstata. “Não se trata de fazer PSA para todos indiscriminadamente, mas de discutir riscos e benefícios, especialmente em homens com histórico familiar ou os afrodescendentes, que tendem a ter doença mais precoce e agressiva”.
Bexiga exige atenção permanente e investigação imediata
Embora menos discutido publicamente, o câncer de bexiga ocupa posição de destaque entre os tumores urológicos masculinos. O INCA estima 13.110 novos casos por ano, sendo 9.040 em homens, com risco de 8,65 por 100 mil. “É um tumor muito frequente no homem e, muitas vezes, recorrente, com impacto enorme na vida do paciente e no sistema de saúde”, explica Guimarães. “Estamos falando de acompanhamento prolongado, múltiplas cistoscopias, ressecções endoscópicas e terapias intravesicais”.
O tabagismo é apontado como o principal fator de risco para câncer de bexiga. “Cerca de 50% a 70% dos casos de câncer de bexiga estão associados ao cigarro”, afirma. Exposições ocupacionais também contribuem para o risco, sobretudo em ambientes industriais. Para o especialista, há uma mensagem que precisa ser repetida sem exceções. “Sangue na urina nunca é normal. Hematúria exige investigação imediata, mesmo que desapareça espontaneamente. Normalizar esse sinal é um erro que pode custar a chance de cura”, alerta Guimarães.
Câncer de Rim, um perigo silencioso
O câncer renal apresenta uma frequência crescente no Brasil, impulsionada tanto por fatores metabólicos quanto pelo aumento de exames de imagem realizados por outros motivos. “É um tumor muitas vezes silencioso”, explica Guimarães. “Por isso ganhou o apelido de ‘tumor do radiologista’, já que muitos casos são achados incidentais em ultrassons ou tomografias”, explica.
Obesidade, hipertensão e tabagismo aparecem como fatores de risco relevantes. “Quando surgem sintomas clássicos, como hematúria ou dor lombar persistente, a doença pode já estar em estágio avançado”, alerta. Segundo ele, o controle metabólico tem papel central na prevenção. “Cuidar da pressão, do peso e abandonar o cigarro não previnem apenas doenças cardiovasculares, mas também impactam diretamente o risco de câncer renal”.
Câncer de testículo é o mais comum em homens jovens
Entre os homens jovens, o câncer de testículo ocupa um lugar singular. Embora menos comum em números absolutos, é o tumor sólido mais frequente nessa faixa etária. “A grande mensagem aqui é que estamos falando de altíssimas taxas de cura quando o diagnóstico é precoce”, afirma Guimarães. Ele defende a naturalização da atenção ao próprio corpo. “O objetivo é que o jovem tenha a mesma facilidade para notar uma alteração no testículo que tem para perceber uma espinha no rosto”, diz. Nódulos endurecidos, aumento de volume, assimetria recente ou sensação de peso devem motivar avaliação médica.
“O diagnóstico precoce, nesse caso, é quase sinônimo de cura e preservação da fertilidade”, reforça. Para isso, segundo o especialista, é fundamental reduzir vergonha, estigma e garantir acesso rápido ao exame físico e ao ultrassom escrotal quando indicado.
Gargalos de informação e acesso ampliam a gravidade dos números
Na avaliação de Guimarães, os dados do INCA confirmam tendências já observadas na prática clínica, mas acendem um sinal de alerta para a jornada do paciente oncológico no Brasil. “O problema não é apenas quantos casos teremos, mas quando esses pacientes chegam ao sistema”.
Ele aponta confusões conceituais como sendo um dos entraves. “Misturar prevenção com rastreamento gera excesso de exames em alguns grupos e falta em outros”, afirma. Soma-se a isso uma cultura masculina de baixa adesão ao cuidado contínuo. “Muitos homens ainda só procuram ajuda quando dói, quando o sintoma já é limitante”.
Outro ponto crítico, na visão de Guimarães, é a normalização de sinais de alerta. “Levantar-se várias vezes à noite para urinar ou ter jato fraco não deve ser automaticamente atribuído à idade. Da mesma forma, sangue na urina não pode ser tratado como algo banal”, diz. Para o especialista, o maior risco é o represamento de exames diagnósticos. “Demora para consulta, biópsia ou exame de imagem transforma casos potencialmente curáveis em casos paliativos. Precisamos fazer valer a Lei dos 30 dias para diagnóstico e a Lei dos 60 dias para início do tratamento”.
Outros cânceres relevantes na saúde masculina
Além dos tumores urológicos, Guimarães chama atenção para outros cânceres de grande impacto entre os homens brasileiros. O câncer de pulmão segue como um dos mais letais, com estimativa de 35.380 novos casos por ano, sendo 18.730 em homens. “Parar de fumar continua sendo a principal medida de prevenção que salva vidas”, afirma.
O câncer colorretal, com 53.810 novos casos anuais, dos quais 26.270 em homens, cresce de forma consistente. “Sangue nas fezes, anemia e mudança do hábito intestinal precisam ser investigados, assim como o acesso organizado à colonoscopia quando indicada”, diz.
Já o câncer de estômago, estimado em 22.530 casos por ano, com maior peso no sexo masculino, permanece associado a fatores regionais, dieta rica em sal e ultraprocessados e diagnóstico tardio. “Sintomas persistentes não podem ser ignorados”, alerta.
Comunicação em saúde como ponte para mudar desfechos
Gustavo Guimarães afirma que transformar estimativas em melhores desfechos passa necessariamente pelo papel do médico e da comunicação em saúde. “Precisamos traduzir risco em ação simples, com linguagem acessível e orientações diretas”, afirma. “O médico moderno não é apenas um executor técnico, mas um curador de informações confiáveis em meio a um ambiente saturado de desinformação”, analisa.
Ele defende o equilíbrio entre evidência científica e individualização do cuidado. “Não podemos cair em polarizações do tipo ‘PSA para todos’ ou ‘não faça nada’. A decisão compartilhada, baseada em risco e contexto, é o caminho”. Por fim, Guimarães destaca a necessidade de integração da rede de atenção. “Orientar o caminho certo, cobrar prazos e garantir comunicação entre atenção primária, especialistas e oncologia é o que, de fato, transforma números projetados em histórias de cura ou de vida preservada”.
