Alta de diagnósticos em pessoas com menos de 50 anos desafia recomendações tradicionais de rastreamento e acende alerta sobre sintomas ignorados, estilo de vida e prevenção precoce
Durante décadas associado ao envelhecimento, o câncer colorretal passou a ocupar um novo espaço nas estatísticas globais: o de tumor em ascensão entre adultos jovens. Segundo a Sociedade Americana de Câncer, cerca de 20% dos diagnósticos já ocorrem em pessoas com menos de 55 anos. E a incidência em indivíduos abaixo dos 50 segue em crescimento consistente em diversos países. A tendência contraria a queda observada nas faixas etárias mais altas, onde o rastreamento sistemático tem mostrado impacto positivo.
Especialistas investigam as razões dessa mudança de perfil. “Entre os fatores associados, estão obesidade, sedentarismo, consumo elevado de alimentos ultraprocessados, ingestão frequente de carne processada, álcool e tabagismo. Há também hipóteses em estudo envolvendo alterações no microbioma intestinal e exposições ambientais precoces. Embora não haja uma única causa definida, o consenso é de que mudanças no estilo de vida das últimas décadas desempenham papel relevante”, explica o Dr. André Luiz Silveira, oncologista especializado em tumores gastrointestinais do Hcor.
Um dos principais desafios é que os sintomas iniciais podem ser facilmente negligenciados ou atribuídos a condições benignas, como hemorroidas ou síndrome do intestino irritável. Sinais que merecem investigação incluem sangramento nas fezes, alteração persistente do hábito intestinal (diarreia ou constipação), dor abdominal recorrente, perda de peso sem causa aparente e anemia.
“O aumento dos casos em adultos jovens exige uma mudança de mentalidade. Nem todo paciente com menos de 50 anos e sangramento intestinal tem um problema benigno. É preciso avaliar com critério. Quando diagnosticado em fase inicial, o câncer colorretal tem altas taxas de cura. O atraso no diagnóstico é o que compromete o prognóstico”, reforça o oncologista.
Ainda segundo o especialista, a colonoscopia continua sendo o principal exame para rastreamento e diagnóstico, pois permite identificar e remover pólipos, lesões precursoras que podem levar anos para se transformar em câncer. “Em muitos países, a idade recomendada para início do rastreamento em pessoas de risco médio já foi reduzida de 50 para 45 anos, refletindo a mudança no perfil epidemiológico. Testes de sangue oculto nas fezes e exames de DNA fecal também fazem parte das estratégias de detecção precoce”, revela o médico.
A prevenção envolve uma combinação de rastreamento adequado e mudanças comportamentais. Entre as principais medidas estão:
- Alimentação rica em fibras (frutas, verduras, legumes e grãos integrais)
- Redução do consumo de carnes processadas e ultraprocessados
- Prática regular de atividade física
- Controle do peso corporal
- Evitar tabagismo e consumo excessivo de álcool
Nos casos já diagnosticados, o tratamento depende do estágio da doença. “Tumores iniciais podem ser tratados com cirurgia curativa. Em estágios mais avançados, associações de quimioterapia, radioterapia (especialmente em tumores de reto), terapias-alvo e imunoterapia ampliaram as possibilidades terapêuticas nos últimos anos. A incorporação de testes moleculares permite identificar subgrupos de pacientes que respondem melhor a estratégias específicas, aproximando o tratamento de uma abordagem mais personalizada”, conta.
Para o especialista, a principal mensagem é clara: idade jovem não é sinônimo de baixo risco. “A combinação entre atenção aos sintomas, acesso ao rastreamento e adoção de hábitos saudáveis pode alterar significativamente o curso da doença — e impedir que a tendência de crescimento entre adultos jovens se consolide nas próximas décadas”, reforça.
