Mesmo após episódios recentes no sistema financeiro, ativo de renda fixa continua relevante para investidores que buscam segurança, previsibilidade e retorno ajustado ao risco
O recente caso de liquidação do Banco Master reacendeu o debate sobre segurança, risco de crédito e o papel do Fundo Garantidor de Créditos na renda fixa brasileira. Ainda assim, o episódio não alterou a relevância estrutural dos Certificados de Depósito Bancário no portfólio dos investidores. Em um cenário de juros elevados e incertezas fiscais, os CDBs seguem como um dos principais instrumentos de alocação para quem busca previsibilidade, liquidez e retorno competitivo, desde que a escolha vá além da taxa oferecida.
Para Daniel Abrahão, economista da iHUB Investimentos, o momento reforça a importância de critério e estratégia. “Mesmo em juros elevados, não faz sentido escolher CDB apenas pela taxa. O ponto de partida é alinhar indexador, prazo e risco de crédito ao objetivo do investidor. Retornos acima do mercado normalmente remuneram risco adicional, e isso precisa estar claro dentro da carteira”, afirma.
Indexador, prazo e risco definem o melhor CDB
Com a taxa básica de juros ainda em patamar elevado, CDBs pós-fixados atrelados ao CDI continuam sendo a escolha predominante no curto prazo, por refletirem diretamente o nível dos juros. Já os prefixados exigem uma leitura mais cuidadosa de cenário. “Eles podem fazer sentido quando há convicção de queda de juros e capacidade de carregar o título até o vencimento. O problema é que, em muitos casos, o mercado já precificou boa parte desse movimento”, explica Abrahão.
Já os CDBs indexados ao IPCA ganham espaço como instrumento de proteção do poder de compra no longo prazo, especialmente em um ambiente de incertezas fiscais. O prazo também influencia não apenas a liquidez, mas a eficiência tributária. “Insistir sempre em vencimentos muito curtos pode reduzir a eficiência de acumulação por conta da tributação recorrente”, destaca o economista.
Na comparação entre grandes bancos e instituições médias e pequenas, a lógica é direta. “Taxas mais altas costumam refletir maior prêmio de risco. Bancos grandes captam com mais facilidade e pagam menos. Instituições menores precisam oferecer remuneração maior para competir”, diz Abrahão. Segundo ele, esses emissores podem compor a estratégia, desde que em posições dimensionadas e diversificadas.
FGC protege, mas não substitui diversificação e estratégia
O Fundo Garantidor de Créditos segue sendo um elemento central na decisão, especialmente para investidores que operam dentro dos limites de cobertura. No entanto, o economista alerta que a garantia não elimina todos os riscos. “O FGC deve ser tratado como uma camada adicional de proteção, não como substituto da análise de crédito, da diversificação e do entendimento do papel daquele CDB dentro da carteira”, afirma.
Episódios recentes no sistema financeiro reforçam esse ponto. Embora os mecanismos de proteção funcionem, o investidor precisa considerar fatores como concentração por emissor, prazo do investimento e o eventual desconforto de ter recursos indisponíveis em cenários de estresse.
Do ponto de vista estratégico, Abrahão avalia que o pós-fixado ao CDI ainda oferece retorno mais previsível enquanto os juros permanecerem elevados. “Em carteiras bem estruturadas, faz sentido manter uma base relevante em pós-fixados e usar prefixados de forma pontual, sem transformar a renda fixa em uma aposta direcional na Selic”, afirma.
CDB não é produto único, é ferramenta de carteira
Para o economista, não existe um “CDB ideal” em termos absolutos. “O melhor CDB depende do perfil, do horizonte, da necessidade de liquidez e da composição da carteira. Em renda fixa, o melhor ativo não é o que paga mais, mas o que entrega retorno compatível com o risco dentro de uma estratégia coerente”, conclui Daniel Abrahão.
Em um portfólio equilibrado, os CDBs seguem como peça relevante, dividindo espaço com Tesouro Direto e, em alguns perfis, com crédito privado. A atratividade do produto, especialmente após eventos recentes no mercado, passa menos por manchetes e mais pela disciplina na construção da carteira, respeitando limites, diversificação e objetivos de longo prazo.
