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Catástrofes e solvência: resseguro ganha protagonismo em 2026

Juliana Alves, diretora da Fenaber; e Rafaela Barreda, presidente da Fenaber / Foto: Universo do Seguro
Juliana Alves, diretora da Fenaber; e Rafaela Barreda, presidente da Fenaber / Foto: Universo do Seguro

A indústria de resseguros tem acompanhado, com um senso crescente de urgência, a mudança de patamar do risco no país. Em almoço com jornalistas no Rio de Janeiro, na tarde desta quarta-feira (11), duas vozes centrais da Federação Nacional das Empresas de Resseguros (Fenaber) colocaram o tema em perspectiva: Juliana Alves, diretora da Federação e presidente da Swiss Re no Brasil e no Cone Sul, e Rafaela Barreda, presidente da Fenaber e do Lloyd’s of London no Brasil. O encontro funcionou como uma prévia do debate que deve ganhar palco no Encontro do Resseguro, marcado para 19 e 20 de maio de 2026, no Rio, com o retorno do evento à cidade após sete anos.

O pano de fundo foi direto: o resseguro, por natureza transnacional, está sendo chamado a traduzir experiência global em soluções aplicáveis a um mercado que, por muito tempo, não foi “enxergado” como catastrófico. “Para os resseguradores, riscos climáticos não são novidade. A novidade é o mercado brasileiro, que nunca foi colocado como um mercado catastrófico, principalmente para riscos climáticos”, contextualizou Rafaela Barreda, ao apontar que ainda há um espaço em desenvolvimento no país para modelos mais específicos de proteção a catástrofes.

Catástrofes, frequência e o custo de ficar descoberto

A conversa avançou sobre como eventos extremos deixaram de ser exceção estatística para virar uma recorrência operacional. Juliana Alves mencionou a reorientação do discurso e da estrutura de trabalho do regulador para o tema de catástrofes, em um movimento acelerado após episódios recentes. Ela citou o impacto fiscal observado no Sul como sinal de alerta. “A Secretaria da Fazenda do Rio Grande do Sul gastou mais ou menos R$ 90 bilhões para reconstruir pós-catástrofe. Saiu dos cofres públicos, porque não existia uma proteção de catástrofe”, pontuou.

Rafaela completou que, em outros países, a proteção catastrófica costuma nascer de arranjos combinados entre setor privado e Estado, com infraestrutura de resiliência. Na prática, isso significa discutir desde mapeamento e ocupação urbana até obras de mitigação, como dragagem e contenção, para reduzir risco antes mesmo de precificar uma apólice. O ponto sensível, na visão das executivas, é que sem coordenação e sem desenho econômico viável, o risco fica “caro demais” para o segurado e “alto demais” para o mercado absorver.

Onde o resseguro realmente agrega

Ao explicar o valor do resseguro em momentos de transição, Rafaela Barreda destacou o papel da transferência de conhecimento e do benchmarking internacional. “O resseguro agrega exatamente por ser uma atividade transnacional: você traz as experiências de outras regiões que já passaram por isso e entende como endereçaram”, sinalizou, ao defender que a Fenaber tem buscado abrir “um diálogo” estruturado com regulador, seguradoras e resseguradoras.

Juliana reforçou que essa troca é determinante quando o risco “aparece” no Brasil com intensidade semelhante à já observada em mercados maduros, de enchentes europeias a incêndios florestais em países como Estados Unidos e Austrália. Na leitura dela, a discussão tende a evoluir para soluções combinadas, com seguro, instrumentos de mitigação e incentivos à gestão de risco. “Ok, agora todo mundo toma consciência do risco. Qual é o próximo passo? A população e os governos buscarem uma solução que vai passar por seguro”, observou.

Capital, apetite e o triângulo técnico do resseguro

A macroeconomia e as tensões globais também entraram no radar, sobretudo pelo efeito no apetite a risco e na alocação de capital. Rafaela Barreda explicou que, quando o capital é precificado globalmente, a decisão passa a ser um exercício de equilíbrio: regiões que exigem mais capital por risco elevado acabam competindo com locais onde a mesma exposição pode ser menor. Ela sintetizou essa lógica no tripé clássico do setor: “A gente tem o triângulo: prêmio, sinistro e frequência. Quanto tempo de prêmio você precisa coletar para um sinistro de magnitude X e quanto tempo leva para pagar”.

Cosseguro, transparência e a nova Lei de Seguros

As especialistas também abordaram os efeitos do novo marco legal do seguro sobre a dinâmica seguro-resseguro, com foco em cosseguro e transparência ao segurado. Rafaela avaliou que a lei trouxe uma formalização importante. “Para os resseguradores foi boa, porque requer um comprometimento maior entre as seguradoras que estão oferecendo o cosseguro”, observou, ao defender que o segurado precisa ter ciência prévia da estrutura e concordar com a divisão entre as companhias envolvidas.

Juliana detalhou que a lei amplia controles e clareza no processo de sinistro e na coleta de informações do risco, elevando a responsabilidade de mercado para evitar zonas cinzentas. Na prática, se a seguradora não pergunta o que precisa na contratação, depois perde espaço para recusar com base em “desconhecimento”. Esse ponto, segundo ela, aumenta a exigência de qualidade de informação na ponta e impulsiona mudança de cultura: risco bem descrito, risco bem precificado, risco bem ressegurado.

Solvência, soluções estruturadas e o “freio” da incerteza regulatória

Ao falar de solvência, Juliana Alves destacou que o resseguro também atua como ferramenta de gestão de capital. “Existe solução de resseguro para solvência, para nível de capital. A seguradora pode ceder parte do portfólio para liberar capital e continuar crescendo ou investir em outras frentes”, definiu, ao lembrar que resseguradores acompanham de perto a saúde financeira das cedentes.

Rafaela e Juliana reconheceram, porém, que a agenda regulatória ainda cria um intervalo de espera, especialmente por conta de consultas públicas e definições pendentes. A avaliação foi que, com peças importantes em discussão, parte do mercado segura investimentos maiores em inovação até ter mais clareza sobre regras e interpretação. Ainda assim, a sinalização é de destravamento gradual ao longo do ano, com impacto direto na disposição de criar produtos e estruturar novas capacidades.

Encontro do Resseguro: o retorno ao Rio e o “timing” do debate

Embora o almoço não tenha sido um anúncio formal de programação, a conversa apontou por que o Encontro do Resseguro volta ao Rio em 2026: o setor está atravessando um ciclo em que catástrofes, capital, governança, transparência e tecnologia deixaram de ser temas paralelos para virar núcleo do negócio. Para as lideranças, o Brasil segue sendo um mercado com “muita oportunidade”, mas que precisa de mais liberdade técnica para riscos complexos, menos confusão regulatória entre regimes distintos e, principalmente, um alinhamento mais maduro entre seguradoras, resseguradoras e poder público.

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