Especialistas avaliam que impacto tende a ser moderado no agregado, mas relevante para empresas exportadoras; crédito estruturado ganha espaço em meio à volatilidade e à maior seletividade no mercado
A nova rodada de tarifas anunciada no cenário internacional (associada ao chamado “efeito Trump”) voltou a acender o sinal de alerta entre analistas e executivos do mercado financeiro. A leitura predominante é que o impacto sobre o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro não deve ser sistêmico, mas pode ser relevante em setores diretamente expostos ao comércio exterior, com reflexos sobre margens, fluxo de caixa e decisões de investimento.
A percepção também é de aumento imediato da volatilidade em ativos de risco, com efeitos em câmbio, bolsa, curva de juros e prêmios exigidos pelo mercado, além de possível avanço do crédito estruturado como alternativa de financiamento em um ambiente mais incerto.
Para Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, o mercado reage rapidamente quando há mudança nas regras do comércio internacional. “O anúncio das tarifas amplia a percepção de risco geopolítico e adiciona volatilidade ao ambiente global, com reflexos imediatos no câmbio, na bolsa e nos prêmios de risco”, afirma. Segundo ele, “do ponto de vista macro, a pressão sobre o PIB brasileiro tende a ser mais setorial do que sistêmica, concentrada em empresas exportadoras, mas ainda assim relevante para margens e decisões de investimento no curto prazo”.
Sidney acrescenta que “a intensidade desse impacto dependerá do alcance das exceções e da duração efetiva da medida” e avalia que, nesse contexto, “o crédito estruturado pode ganhar espaço, já que empresas buscam alternativas mais flexíveis e previsíveis de financiamento diante de maior seletividade bancária”.
Impacto no PIB deve ser moderado no agregado, mas relevante por setor
A visão de impacto concentrado também aparece na avaliação de Gustavo Assis, CEO da Asset Bank. Para ele, “a imposição de tarifas amplia o nível de incerteza externa e pode afetar diretamente empresas exportadoras, pressionando margens e fluxo de caixa”. O executivo pondera que “embora o efeito sobre o PIB brasileiro deva ser moderado no agregado, o impacto setorial pode ser relevante”.
Gustavo destaca ainda que, em cenários como esse, “o crédito estruturado tende a ganhar espaço porque oferece alternativas mais flexíveis e customizadas de financiamento, especialmente para empresas que precisam reorganizar capital de giro ou mitigar riscos comerciais”. Na visão dele, os investidores passam a valorizar “estruturas com garantias sólidas, transparência e mecanismos de proteção”.
Na mesma linha, Pedro Ros, CEO da Referência Capital, pondera que “a medida eleva o grau de incerteza externa e pode reduzir a competitividade de alguns setores brasileiros no curto prazo, pressionando margens e decisões de investimento”. Ele reforça que “no agregado, o impacto sobre o PIB tende a ser moderado, mas o canal de confiança pode amplificar efeitos setoriais”.
Pedro Ros também ressalta o papel do crédito estruturado neste ambiente: “Em momentos assim, o crédito estruturado costuma avançar por oferecer previsibilidade e soluções sob medida para empresas que precisam ajustar fluxo de caixa e reorganizar passivos”. Para o investidor, segundo ele, “a orientação é manter equilíbrio de carteira, reforçar diversificação e priorizar ativos com fundamentos sólidos”.
Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, segue a mesma leitura e observa que “as tarifas adicionam risco ao cenário internacional e elevam o prêmio exigido para ativos mais sensíveis ao comércio exterior”. Para ele, “o impacto sobre o PIB brasileiro tende a ser concentrado em segmentos específicos, mas pode afetar confiança empresarial e decisões de investimento no curto prazo”.
Edgar destaca que, “em contextos de incerteza, o crédito estruturado tende a crescer porque oferece soluções adaptáveis para capital de giro e reorganização financeira”, especialmente quando empresas precisam mitigar riscos de receita. Já para o investidor, recomenda “reforçar diversificação, priorizar estruturas com proteção e governança e evitar concentração excessiva em setores diretamente impactados”.
Também com foco no crescimento e atividade, André Matos, CEO da MA7 Negócios, resume que “as novas tarifas elevam a incerteza e podem pressionar setores exportadores, limitando o ritmo de crescimento do PIB brasileiro”. Segundo ele, “não é um choque imediato, mas aumenta o risco para a atividade”. Na visão do executivo, “o crédito estruturado tende a ganhar espaço, já que empresas buscam reorganizar caixa e alongar dívidas”, enquanto o investidor deve adotar “postura mais defensiva, foco em qualidade e maior disciplina na gestão de risco”.
Volatilidade global e respostas das empresas
João Kepler, CEO da Equity Group, chama atenção para o momento macroeconômico internacional em que a nova rodada de tarifas ocorre. “A nova rodada de tarifas impõe um choque de incerteza ao comércio global em um momento em que as economias emergentes buscavam estabilidade após ciclos intensos de aperto monetário”, revela.
Na análise dele, “tarifas elevam custo, reduzem margem e tendem a afetar volume de exportação, o que pode pressionar o PIB brasileiro na margem, principalmente em setores mais expostos ao mercado americano”. Ainda assim, Kepler pondera que “o impacto agregado depende da abrangência real das medidas e da capacidade de redirecionamento comercial”.
Sobre financiamento, ele reforça que “em ambientes de maior volatilidade externa, o crédito estruturado costuma ganhar relevância porque empresas buscam previsibilidade de fluxo de caixa e alternativas mais flexíveis ao crédito bancário tradicional”. Para o investidor, diz, “o momento não é de retração absoluta, mas de postura mais seletiva, diversificação de risco e foco em ativos com geração de caixa consistente”.
Startups sentem efeito pela confiança e pelo custo de capital
O impacto não se limita às exportadoras tradicionais. Antonio Patrus, diretor da Bossa Invest, avalia que o ecossistema de inovação também sente a pressão, sobretudo pelo canal financeiro. “As tarifas ampliam o nível de tensão no ambiente global e elevam a cautela nos fluxos internacionais, mas não mudam a trajetória estrutural de inovação e transformação tecnológica”, indica.
Segundo Patrus, “do ponto de vista macroeconômico, o impacto sobre o PIB brasileiro tende a ser mais concentrado em setores diretamente expostos ao comércio exterior, enquanto o ecossistema de startups sente o efeito principalmente pelo canal da confiança e do custo de capital”. Ele acrescenta que, em momentos de incerteza, “investidores de venture capital tendem a reforçar critérios de governança, disciplina financeira e previsibilidade de receita, priorizando modelos mais resilientes”.
Ao mesmo tempo, o diretor da Bossa Invest destaca oportunidades: “ciclos de tensão costumam estimular soluções inovadoras em áreas como logística, cadeias produtivas, eficiência industrial e substituição de importações, criando espaço para novos modelos de negócio”. Para ele, “o cenário pede seletividade e análise criteriosa, mas não paralisação”.
Investidor deve priorizar diversificação e rebalanceamento disciplinado
Do lado da alocação, Fábio Murad, economista e CEO da Super-ETF Educação, diz que a nova rodada de tarifas reforça uma lição importante para quem investe no longo prazo. “A nova rodada de tarifas reforça um ponto central para o investidor de longo prazo: risco geopolítico não é evento raro, é variável estrutural do mercado global”, acrescenta.
Murad observa que “a medida pode pressionar setores exportadores e gerar volatilidade no câmbio e na bolsa, mas o impacto agregado sobre o PIB brasileiro tende a ser mais concentrado do que sistêmico”. Para quem investe via ETFs, ele diz que o episódio “reforça a importância da diversificação por região, setor e classe de ativo”.
Na avaliação do economista, “momentos como esse não são convite à saída abrupta, mas à revisão estratégica de exposição”, especialmente para carteiras concentradas em setores mais sensíveis ao comércio exterior. “Educação financeira aqui é entender que ciclos de tensão criam ruído de curto prazo, mas também oportunidades para rebalanceamento disciplinado”, completa.
Crédito estruturado como proteção e como alavanca
Entre os especialistas, o crédito estruturado aparece de forma recorrente como resposta ao ambiente mais instável. Mas há quem veja, além da função defensiva, um potencial de expansão em um cenário de menor risco sistêmico.
Peterson Rizzo, gerente de R.I da Multiplike, apresenta um contraponto mais construtivo. “Apesar de alguns setores específicos, como aço e alumínio, seguirem sujeitos a tarifas mais elevadas, o cenário geral mudou de forma relevante”, menciona. Segundo ele, “a decisão da Suprema Corte reduziu distorções, diminuiu o risco sistêmico e trouxe maior previsibilidade ao comércio internacional”.
Rizzo avalia que, com “taxas globais mais baixas e uniformes, o ambiente externo torna-se mais construtivo, melhora a competitividade das exportações brasileiras e reduz incertezas”. Nesse contexto, o especialista considera que “abre espaço para a retomada de investimentos e para o uso do crédito como alavanca de crescimento, e não apenas como instrumento de proteção”.
Ele acrescenta que, com menor risco sistêmico, “o crédito deixa de ter caráter defensivo e volta a atuar como vetor de expansão, especialmente em estruturas mais sofisticadas e direcionadas”. Ainda assim, ressalta: “o momento exige crescimento com disciplina financeira”.
Mercado deve acompanhar alcance real das medidas
Embora as avaliações tragam nuances, a convergência é clara: o “tarifaço” amplia a incerteza global e exige atenção redobrada de empresas e investidores, especialmente nos setores exportadores. O impacto sobre o PIB brasileiro, segundo as fontes ouvidas, tende a ser moderado no agregado, mas com capacidade de pressionar margens e decisões de investimento no curto prazo.
A depender da abrangência das tarifas, das exceções e da duração das medidas, o mercado pode assistir a um período de maior volatilidade, com efeitos visíveis primeiro nos preços dos ativos e, em seguida, nas estratégias de financiamento e alocação de capital.
*Com informações de Guerato Press
