Modelo permitiu antecipar recebíveis, reduzir dependência bancária e multiplicar por seis o patrimônio de grupo de concessionárias
A decisão de estruturar um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) próprio levou um grupo de concessionárias de máquinas agrícolas assessoradas pela Catálise, a maior gestora independente do Sul do Brasil, a registrar rentabilidade de 70,84% em dois anos, equivalente a cerca de 270% do CDI no período. No mesmo intervalo, o patrimônio líquido evoluiu de R$ 17 milhões para R$ 112 milhões, após aportes e rentabilidade acumulada, com geração adicional de R$ 21 milhões em eficiência financeira recorrente. O caso ilustra como empresas do agronegócio têm recorrido ao mercado de capitais para reorganizar sua estrutura de crédito e reduzir a dependência bancária.
Segundo Bruno Lage, sócio fundador da Catálise, a mudança alterou o papel da área financeira dentro da empresa. “Ao estruturar o FIDC proprietário, o grupo deixou de tratar o crédito apenas como necessidade operacional e passou a enxergá-lo como uma alavanca de resultado”, afirma. “O que antes era custo financeiro virou fonte de rentabilidade dentro do próprio ecossistema da companhia.”
O movimento ocorre em um momento de expansão dos instrumentos de crédito ligados ao agro no mercado de capitais. Dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) mostram que o patrimônio líquido dos FIAGRO saltou de R$ 14,7 bilhões em março de 2023 para R$ 44,7 bilhões em março de 2025, crescimento de 204% em dois anos. Dentro desse universo, os fundos estruturados como FIDC, voltados à aquisição de direitos creditórios do setor, representam parcela relevante das novas emissões, indicando um maior amadurecimento financeiro do agronegócio.
Como funciona
O FIDC é um veículo regulado pela CVM que adquire direitos creditórios, como duplicatas, contratos de venda a prazo ou parcelas de financiamento. Ao ceder esses recebíveis ao fundo, a empresa antecipa receitas e obtém liquidez imediata. Em estruturas proprietárias, o fundo é organizado para operar prioritariamente com os créditos do próprio grupo econômico, criando uma espécie de “braço financeiro” interno.
Na prática, o mecanismo altera a dinâmica de financiamento. Em vez de recorrer a bancos comerciais para antecipar recebíveis ou financiar estoques, a empresa passa a utilizar o próprio fluxo de vendas como garantia para captar recursos via fundo. A operação exige administrador, gestor e custodiante habilitados, além de regras claras de governança e política de crédito.
Para empresas do agronegócio, marcadas por forte sazonalidade e necessidade elevada de capital de giro, a previsibilidade de caixa é um dos principais atrativos. “O FIDC permite planejar melhor os ciclos de safra e entressafra. A companhia ganha autonomia para definir suas condições de crédito e reduz exposição a revisões de limite e spreads bancários”, diz Lage.
Expansão
Em 2025, o agronegócio brasileiro reforçou seu papel como motor externo da economia ao combinar expansão comercial e produção recorde. Desde 2023, o país abriu 525 novos mercados, gerando cerca de US$ 4 bilhões em receitas cambiais adicionais, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária. A safra 2024/2025 alcançou 352,2 milhões de toneladas de grãos, alta de 17%, e a produção de carnes bovina, suína e de frango também bateu recorde, garantindo excedentes exportáveis.
O movimento é acompanhado pelo avanço do mercado de capitais, que já direciona cerca de R$ 1 trilhão ao setor por meio da LCA (Letra de Crédito do Agronegócio), usada por bancos para captar recursos ao financiamento rural, e da CPR (Cédula de Produto Rural), que permite ao produtor antecipar recursos com base na entrega futura da produção.
Nesse contexto, explica Bruno Lage, a tendência é que o uso de FIDCs proprietários se consolide entre empresas de médio e grande porte do setor, especialmente aquelas com volume significativo de vendas a prazo e carteira pulverizada de clientes. “O caso estruturado pela Catálise indica que, quando bem desenhada, a engenharia financeira pode alterar de forma estrutural o resultado operacional”, conclui.
