Virgilio Marques dos Santos, gestor de carreiras, analisa o descompasso entre as exigências das empresas e a qualificação dos profissionais no Brasil
Enquanto o mercado de trabalho brasileiro avança com demandas sofisticadas como inteligência artificial, análise de dados e liderança estratégica, grande parte da força de trabalho ainda enfrenta dificuldades com ferramentas básicas, como o Excel. Essa lacuna entre o que as empresas exigem e o que os profissionais conseguem entregar tem se tornado um dos principais gargalos do desenvolvimento econômico.
Segundo Virgilio Marques dos Santos, sócio-fundador da FM2S Educação e Consultoria, gestor de carreiras e PhD pela Unicamp, essa desconexão não é fruto de falta de esforço dos trabalhadores, mas de um sistema que não preparou a maioria para o cenário atual. “O Brasil quer inovação, mas a base educacional e profissional foi montada para obedecer, não para criar. Querem pensamento crítico de quem nunca teve espaço para questionar. Isso gera frustração e paralisação na carreira”, afirma Santos.
O especialista explica que o mercado passou a exigir habilidades como autonomia digital, retenção de clientes e resolução de problemas estratégicos. No entanto, a realidade do trabalhador médio brasileiro é outra: muitos têm ensino médio incompleto, formação técnica defasada ou cursos superiores sem aplicação prática. A consequência direta desse desalinhamento é a estagnação profissional e a dificuldade das empresas em encontrar talentos preparados.
“Hoje, o problema não é mais saber ler ou escrever, mas interpretar, analisar e aplicar. O novo analfabetismo profissional é o da lógica e do raciocínio”, diz Santos. “Muitos executam tarefas sem compreender o impacto do que fazem. Isso limita a inovação e a eficiência dentro das empresas”.
Além disso, o Brasil ainda romantiza a improvisação. Profissionais são valorizados pela criatividade na gambiarra, mas não são treinados para planejar e estruturar soluções duradouras. “O improviso funciona no curto prazo, mas, para crescer na carreira, é preciso método, visão analítica e capacidade de transformar problemas em processos eficientes”, reforça Santos.
Para reduzir essa lacuna, ele aponta três caminhos fundamentais: um ensino técnico conectado com desafios reais do mercado, o aprendizado contínuo das habilidades exigidas pelos cargos do futuro e a adoção de uma mentalidade mais analítica e estruturada.
Enquanto o discurso empresarial mira o futuro e os trabalhadores lutam para se adaptar, o risco é o país continuar preso a uma armadilha de baixa qualificação e baixa produtividade. “Se o Brasil não levar a sério a formação de quem faz a roda girar, vai continuar dançando a música errada”, conclui Santos.