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Estabilidade no trabalho vira principal estratégia de saúde mental dos brasileiros

Como construir e qual a importância de um bom network/ Foto: Unsplash
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Com mais de 73 mil respondentes, a Pesquisa Carreira dos Sonhos revela uma mudança estrutural na relação com o trabalho; dados do Wellhub mostram que 86% dos profissionais já colocam o bem-estar no mesmo patamar do salário

Durante anos, a busca por estabilidade profissional foi associada à acomodação ou falta de ambição. Mas, segundo os dados da Pesquisa Carreira dos Sonhos 2025, da Cia de Talentos, essa leitura já não se sustenta. Diante de um cenário mais volátil economicamente, pressão constante e esgotamento emocional, esse movimento passou a ser menos interpretado como um “freio” à carreira e mais como uma resposta à necessidade de preservar a saúde mental frente a exposição contínua ao estresse em um ambiente cada vez mais imprevisível.

Ancorada, inicialmente, no fator financeiro, essa prioridade não se limita ao salário. Hoje, ela funciona como um amortecedor emocional, associado a pilares como segurança econômica, ambiente organizacional saudável, reconhecimento e perspectiva real de continuidade dentro da empresa. Esses elementos ajudam a explicar por que o trabalho deixou de ocupar o centro absoluto da identidade das pessoas e passou a ser visto como um meio para sustentar outros aspectos da vida, especialmente a saúde mental.

Entre os jovens, grupo frequentemente retratado como desinteressado ou avesso à responsabilidade, os dados desmontam estereótipos: 62% apontam a estabilidade como prioridade, mas isso não elimina a ambição e 52% seguem buscando crescimento profissional e 45% realização no trabalho. “O que mudou não foi a ambição, mas a disposição de pagar por ela com adoecimento”, explica Danilca Galdini, sócia-diretora de Pessoas & Cultura e Insights da Cia de Talentos. “A busca por estabilidade não indica retração, mas uma tentativa de reduzir a exposição contínua ao estresse, à incerteza e ao desgaste emocional”.

A pesquisa também identifica um comportamento que ajuda a entender como essa busca por estabilidade e proteção emocional se manifesta no dia a dia do trabalho: a chamada “relação freemium”. Em um contexto de pressão constante e promessas nem sempre cumpridas, profissionais passaram a regular seu nível de engajamento como forma de autoproteção emocional. “O esforço extra deixou de ser automático e passou a depender de reconhecimento, condições concretas e perspectivas reais de desenvolvimento, em um movimento que reflete a busca por limites mais saudáveis na relação com as organizações”, aponta a especialista.

Impacto concreto nas empresas: quando bem-estar vira indicador de negócio?

Se a Pesquisa Carreira dos Sonhos ajuda a explicar por que a estabilidade ganhou centralidade como valor emocional, os dados do Panorama do Bem-Estar Corporativo, apresentado pelo Wellhub, mostram os impactos práticos dessa mudança dentro das empresas. Segundo o estudo, 86% dos profissionais consideram o bem-estar tão importante quanto o salário nos processos de atração e retenção, e 89% afirmam ter melhor desempenho quando conseguem priorizar a saúde física e mental. Empresas com colaboradores ativos em programas estruturados de bem-estar registram 30% menos rotatividade, 30% menos absenteísmo e até 35% de economia em custos relacionados à saúde.

No Brasil, os números reforçam a gravidade do cenário: dados do INSS mostram que os transtornos mentais e comportamentais estão entre as principais causas de afastamento do trabalho, com mais de 280 mil benefícios por incapacidade concedidos em um único ano (2023) por diagnósticos como ansiedade e depressão. O avanço desses afastamentos evidencia que o adoecimento emocional deixou de ser pontual e passou a ter impacto direto na vida profissional e na sustentabilidade das organizações.

Há ainda um paradoxo estrutural que ajuda a dimensionar o desafio. Embora existam evidências de que práticas regulares de bem-estar físico e mental atuam como fatores de proteção contra o estresse crônico e o desgaste psicológico, o acesso a essas iniciativas ainda é restrito. No Brasil, apenas 6% da população mantém matrícula ativa em academias, o que indica que o cuidado com o bem-estar não está incorporado de forma ampla à rotina das pessoas. Para Ricardo Guerra, líder do Wellhub no Brasil, esse descompasso mostra que o bem-estar ainda é tratado como uma escolha individual, quando deveria ser encarado como estratégia estruturante dentro das organizações, com potencial preventivo para a saúde mental e para a sustentabilidade do trabalho.

“A busca por estabilidade deixou de ser apenas uma escolha de carreira e passou a funcionar como um mecanismo de proteção da saúde mental. O que mudou não foi a ambição das pessoas, mas o limite do que elas estão dispostas a sacrificar. A estabilidade passou a ser um pré-requisito para engajamento sustentável porque ninguém consegue performar bem vivendo em estado permanente de alerta. Bem-estar deixou de ser uma escolha individual e passou a ser uma responsabilidade organizacional, com impacto direto na saúde mental, na produtividade e na sustentabilidade do trabalho”, comenta o executivo.

Isso reforça uma das principais leituras da Carreira dos Sonhos 2025: a estabilidade deixou de ser apenas um desejo individual e passou a funcionar como condição mínima para engajamento sustentável, em um cenário de pressão contínua e desgaste emocional. “Quando a estabilidade aparece como prioridade absoluta em diferentes gerações, o que os dados estão dizendo é que as pessoas estão tentando se proteger. Não se trata de medo de crescer, mas de uma resposta racional e emocional a um mercado que cobra cada vez mais sem oferecer as mesmas garantias”, conclui Danilca.

Por que a previsibilidade virou uma necessidade psicológica?

Do ponto de vista da saúde mental, a busca por estabilidade se explica pelos impactos emocionais da incerteza prolongada. Ambientes marcados por pressão constante, mudanças frequentes e insegurança em relação ao futuro tendem a manter o corpo em estado contínuo de alerta, elevando o risco de ansiedade crônica, sensação de descontrole e exaustão emocional.

Danielle Galetti, psicóloga e diretora de RH na Pub – ecossistema de gestão de narrativas e reputação, explica que a instabilidade no trabalho afeta diretamente o bem-estar das pessoas: “Quando não há clareza sobre decisões, mudanças e segurança profissional, as pessoas passam a viver sob incerteza permanente. Isso favorece quadros de ansiedade, esgotamento e a sensação de perda de controle, já que a falta de previsibilidade enfraquece a confiança, a autonomia e a percepção de estabilidade”.

Nesse contexto, a previsibilidade – seja financeira, relacional ou de perspectiva – atua como fator de proteção psíquica, o que, na visão da especialista, reduz a carga emocional associada à sobrevivência e permitindo maior equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. “Ambientes que oferecem rotina, critérios claros e segurança ajudam as pessoas a se sentirem mais tranquilas e confiantes. Essa sensação de controle reduz a ansiedade e contribui para o equilíbrio emocional”, afirma Danielle.

Essa leitura ajuda a contextualizar os dados da Carreira dos Sonhos 2025: mais do que conservadorismo, a busca por estabilidade pode ser entendida como uma resposta adaptativa a um ambiente percebido como instável, no qual o trabalho deixou de ser fonte exclusiva de identidade para se tornar meio de sustentação da vida. “Clareza de expectativas, comunicação transparente, relações de apoio, autonomia com suporte e reconhecimento são alguns exemplos de fatores que fortalecem o senso de segurança, pertencimento e controle. Por outro lado, metas confusas, sobrecarga crônica, falta de diálogo, ambientes tóxicos e ausência de reconhecimento aumentam o estresse e elevam o risco de esgotamento”, pontua a psicóloga.

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