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FIDCs entram em fase de maturidade e seletividade às vésperas de um novo ciclo de juros

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Photo by Maxim Hopman on Unsplash

Confira artigo de Richard Ionescu, CEO da IOX boutique de crédito especializada na originação e estruturação de teses de crédito high yield combinando rigor técnico, inovação e gestão de risco

Depois de um período de forte expansão, o mercado de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) começa a dar sinais claros de transição para uma fase mais madura. O movimento é de maior seletividade por parte dos investidores, fenômeno típico de mercados que deixam a etapa de experimentação e avançam para a consolidação.

Entre 2021 e 2024, a indústria de FIDCs cresceu de forma acelerada, impulsionada pela busca por alternativas ao CDI em um ambiente de juros elevados. Esse ciclo foi marcado pela proliferação de estruturas mais simples, teses pouco testadas e uma competição fortemente baseada em retorno. Em 2025, esse cenário mudou. O investidor passou a discriminar melhor risco, gestor, governança e qualidade do lastro. O resultado é um mercado em que novos fundos continuam surgindo, mas a captação se concentra em estruturas mais robustas, com governança clara e engenharia de risco mais sofisticada.

Essa mudança ajuda a explicar por que a maior parte da captação líquida recente tem se direcionado para a categoria chamada de “FIDC Outros”. Longe de ser um rótulo genérico, esse grupo se tornou um verdadeiro guarda-chuva de inovação dentro do crédito estruturado. Nele estão concentradas estruturas que fogem do crédito pulverizado tradicional, como FIDCs lastreados em contratos B2B, recebíveis financeiros estruturados, crédito corporativo middle market, operações híbridas, teses com garantia real, colateral financeiro ou mecanismos avançados de subordinação. Trata-se de uma resposta direta ao novo perfil do investidor, que busca menos “commodity de crédito” e mais engenharia de risco, previsibilidade e diferenciação.

Ao mesmo tempo, observa-se saída de recursos de setores como agro, indústria e comércio. Esse movimento, no entanto, não deve ser interpretado como estrutural. Ele é cíclico e reflete um ambiente de juros elevados combinado com volatilidade de margens, eventos climáticos e maior sensibilidade desses segmentos ao ciclo econômico. Em contextos assim, o investidor tende a reduzir exposição a créditos mais sujeitos a choques operacionais. A expectativa de queda das taxas de juros a partir de 2026 tende a reequilibrar essa dinâmica, trazendo esses setores novamente ao radar à medida que os spreads ajustados ao risco se tornem mais atrativos.

Outra mudança relevante está na hierarquia dos fatores que determinam a capacidade de captação de um FIDC. Se em 2023 e parte de 2024 o retorno liderava as decisões, em 2025 a ordem se inverteu. Governança passou a ocupar o primeiro lugar, seguida pela qualidade do lastro e, só então, pelo retorno. Após eventos de crédito, maior escrutínio regulatório e riscos reputacionais mais evidentes, o investidor passou a aceitar ganhar menos em troca de previsibilidade. Sem governança sólida, que inclui gestor experiente, controles, transparência, alinhamento de interesses e processos claros, o retorno elevado deixou de ser argumento suficiente.

Esse movimento não significa que o investidor tenha se tornado avesso ao risco. Pelo contrário: trata-se de um conservadorismo mais sofisticado. O apetite por risco existe, desde que ele seja explicável, mensurável e mitigável. Teses genéricas perderam espaço para estruturas com subordinação elevada, cotas júnior relevantes, seguros, overcollateral e histórico operacional comprovado. O foco passou a ser disciplina técnica, e não promessa de performance.

Para 2026, a expectativa é de consolidação definitiva da classe. O crescimento deve continuar, mas em ritmo mais moderado e sustentado por qualidade, escala e diferenciação. Fundos com histórico consistente, governança robusta e teses bem definidas devem concentrar a maior parte das novas captações, enquanto estruturas frágeis ou excessivamente alavancadas enfrentarão dificuldade crescente para captar ou mesmo sobreviver. Paralelamente, padrões mais elevados de governança, compliance e prestação de contas tendem a se consolidar, impulsionados tanto por investidores institucionais quanto pela maior visibilidade da classe.

Em síntese, o ciclo que se desenha para os FIDCs é menos sobre quantidade e mais sobre consistência. O crédito estruturado deixa de ser visto como produto alternativo oportunístico e se afirma como pilar do mercado de crédito privado no Brasil, com papel cada vez mais relevante no financiamento da economia real.

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