Às vésperas da próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, marcada para os dias 17 e 18 de março, a nova alta das projeções de inflação no Boletim Focus reacende o debate sobre o ritmo de flexibilização da política monetária. A leitura predominante é que, com expectativas mais pressionadas, a autoridade monetária tende a calibrar a comunicação e manter uma postura mais cautelosa sobre a trajetória da Selic.
Para o economista Marco Barreto, professor de Administração da FEI, o mercado já não discute apenas se o ciclo de cortes ganha tração, mas qual será a velocidade desse movimento. “Quando o mercado volta a projetar inflação mais alta e menos espaço para queda dos juros, a tendência é de um início de flexibilização mais lento ou mais condicionado aos próximos dados”, afirma.
O especialista destaca que, neste momento, o foco dos analistas deve se concentrar em variáveis que sinalizam tanto o comportamento da inflação quanto a resiliência da atividade. Entre os principais vetores, ele aponta as expectativas inflacionárias, a trajetória do câmbio, a dinâmica dos preços do petróleo, os núcleos de inflação e os indicadores de crescimento econômico. A combinação desses fatores, na prática, tende a influenciar a percepção sobre o grau de restrição monetária necessário para manter o processo de desinflação sob controle.
Segundo Barreto, o choque recente no petróleo tem características predominantemente associadas à oferta, o que reduz a capacidade da política monetária de atuar diretamente sobre a origem da pressão. Ainda assim, ele ressalta que a Selic continua desempenhando um papel central para impedir efeitos secundários que podem se espalhar pela economia. “A taxa de juros segue sendo um instrumento importante para evitar efeitos de segunda ordem, como a contaminação das expectativas e o repasse para outros preços da economia”, pontua.
Na avaliação do economista, esse contexto reforça a importância da sinalização do Copom, especialmente em um ambiente no qual pequenas mudanças nas expectativas podem alterar a precificação dos ativos e o humor do mercado. Com a inflação projetada mais alta e a sensibilidade do câmbio e das commodities no radar, cresce a probabilidade de que a flexibilização seja mais gradual, condicionada a evidências consistentes de arrefecimento nos principais indicadores acompanhados pela autoridade monetária.
