Janeiro Branco: estudo liga uso precoce de smartphones a maior risco de depressão e problemas de sono em crianças

group of people standing on brown floor
Foto: Creative Christians no Unsplash

Pesquisa associa exposição a celulares antes dos 12 anos, a depressão, distúrbios do sono e obesidade, reforçando a necessidade de conscientização.

Novas evidências científicas acendem um alerta sobre os impactos do uso precoce de celulares entre crianças e adolescentes. Segundo um estudo publicado na revista Pediatrics, crianças que receberam um smartphone antes dos 12 anos apresentaram risco significativamente maior de desenvolver depressão, obesidade e problemas relacionados ao sono.

Os pesquisadores observaram que, ao chegar aos 12 anos, jovens que já possuíam um celular tinham 31% mais risco de depressão, 40% mais chance de obesidade e 62% mais probabilidade de dormir menos de nove horas por noite, tempo abaixo do recomendado para essa fase do desenvolvimento. As associações persistiram mesmo após ajustes para fatores como nível socioeconômico, puberdade, uso de outros dispositivos e supervisão parental, reforçando a consistência dos resultados.

A psicóloga e coordenadora de psicologia da Afya Sete Lagoas, Dra Sabrina Magalhães Teixeira, explica que o primeiro ponto é desfazer um mito comum: a ideia de que, por nascerem em uma sociedade tecnológica, as crianças deveriam usar celulares cada vez mais cedo e sem restrições. 

“Isso ignora as necessidades do nosso sistema nervoso, que depende da qualidade e da variedade das experiências para se desenvolver. Quando a criança passa muito tempo em telas, ela perde oportunidades de desenvolver habilidades motoras, perceptivas, emocionais e sociais. Brincadeiras presenciais e esportes são fundamentais para aprender a lidar com frustrações, seguir regras, esperar a vez, controlar impulsos e compreender o outro. Esses aprendizados também são a base para que, no futuro, ela consiga ter senso crítico diante das redes sociais”.

A psicóloga também ressalta que o ambiente digital tende a oferecer recompensas rápidas, diferente da vida real, que exige paciência e planejamento. Isso pode dificultar o controle de desejos e impulsos. “Há ainda o risco de interações prejudiciais, como o cyberbullying, em uma fase em que a criança não tem recursos emocionais suficientes para lidar com ataques e exclusões. Outro ponto importante é o impacto das telas no sono. O uso excessivo prejudica o ritmo biológico, o que aumenta irritabilidade, tristeza, dificuldades de atenção e de aprendizagem, além de enfraquecer o sistema imunológico. Assim, o uso precoce e intenso do celular está associado a prejuízos no desenvolvimento emocional, cognitivo e na saúde das crianças”, complementa a psicóloga da Afya Sete Lagoas.

Os resultados do estudo foram obtidos a partir da análise de mais de 10.500 participantes do Adolescent Brain Cognitive Development Study (ABCD), uma das maiores pesquisas já realizadas sobre desenvolvimento cerebral e comportamento juvenil nos Estados Unidos.

Alerta digital entre jovens brasileiros

No Brasil, o cenário amplia a preocupação. De acordo com o estudo TIC Kids Online Brasil 2025, 92% das crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos utilizam a internet regularmente, o que revela que o smartphone e o acesso digital chegam cada vez mais cedo à rotina dos jovens. 

O psiquiatra da Afya Educação Médica de Belo Horizonte, Dr Cláudio Costa, comenta que para compreender por que o uso desordenado do celular ou de qualquer tipo de tela pode ser prejudicial, é essencial lembrar que o neurodesenvolvimento é a principal tarefa dos primeiros anos de vida. 

“Tudo que um bebê e, posteriormente, uma criança vivencia é registrado no sistema nervoso central. Esses registros não se limitam à memória: eles constroem sinapses, redes neuronais e associações entre neurônios, formando a base do funcionamento cerebral, da aprendizagem, do raciocínio e da regulação emocional. Esse processo é conhecido como neuroplasticidade”.

Dr. Cláudio também lista alguns sinais de alerta que podem ajudar os pais a identificar possíveis impactos negativos. Entre eles estão mudanças bruscas de humor, isolamento social, queda no rendimento escolar, irritabilidade ao interromper o uso do aparelho, sono insuficiente ou de má qualidade, perda de interesse por atividades antes prazerosas, alterações no apetite e comportamentos agressivos ou desafiadores.

“Nos atendimentos clínicos, é cada vez mais comum observar crianças e adolescentes cujo uso de telas saiu completamente do controle. Muitos pais relatam brigas constantes, resistência intensa, ameaças e crises de agressividade. Atualmente já se sabe que a exposição precoce e excessiva a smartphones e outras telas age como um atalho contínuo de estímulos. Esse excesso pode desviar tempo e energia que o cérebro deveria investir em atividades essenciais para um desenvolvimento saudável, comprometendo etapas importantes desse processo”, conclui o psiquiatra da Afya Educação Médica de Belo Horizonte.

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