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Mais da metade dos brasileiros não guarda dinheiro e tem menos de R$ 25 mil de patrimônio, aponta estudo global

André Charone, contador e educador financeiro/ Foto: Divulgação
André Charone, contador e educador financeiro/ Foto: Divulgação

Quando o assunto é dinheiro, o Brasil costuma aparecer em rankings internacionais como um país de patrimônio relevante. No entanto, uma leitura mais atenta dos dados mostra que essa percepção está longe de refletir a realidade da maioria da população.

De acordo com o Global Wealth Report, estudo internacional que analisa a riqueza das famílias ao redor do mundo, o patrimônio médio do brasileiro adulto gira em torno de R$ 150 mil, considerando imóveis, veículos, aplicações financeiras e outros bens, já descontadas as dívidas. À primeira vista, o número pode até soar confortável. Mas ele esconde uma distorção profunda.

“O patrimônio médio não representa o brasileiro comum. Ele é inflado por uma pequena parcela extremamente rica da população”, explica André Charone, contador e educador financeiro. “Quando analisamos o patrimônio mediano, que mostra quanto realmente tem o brasileiro típico, o retrato muda completamente”.

Segundo o mesmo estudo, o patrimônio mediano no Brasil fica entre R$ 20 mil e R$ 25 mil. Em termos práticos, isso significa que metade dos brasileiros adultos possui patrimônio total inferior a esse valor, somando tudo o que têm ao longo da vida.

A média que engana

A diferença entre patrimônio médio e mediano é um dos indicadores mais claros da desigualdade brasileira. Enquanto a média sugere um país relativamente patrimonializado, a mediana mostra uma população com baixa capacidade de acumulação e altamente vulnerável a choques financeiros.

“É como dizer que, em uma sala com um milionário e nove pessoas endividadas, todos são relativamente ricos porque a média sobe. Mas isso não paga as contas de ninguém”, observa Charone.

Patrimônio existe, mas não é dinheiro disponível

Outro ponto crítico está na qualidade desse patrimônio. Grande parte do valor declarado pelos brasileiros está concentrada em ativos pouco líquidos, como imóveis de baixo valor ou veículos, muitas vezes adquiridos com muito esforço ao longo de décadas.

Quando o recorte se limita ao patrimônio financeiro, dinheiro em conta, poupança e investimentos, o cenário se torna ainda mais preocupante. Pesquisas nacionais mostram que a maioria dos brasileiros não possui reserva de emergência ou tem valores muito baixos, frequentemente inferiores a R$ 5 mil.

“Na prática, isso significa que um imprevisto relativamente simples, como uma despesa médica ou alguns meses sem renda, já é suficiente para empurrar milhões de famílias para o endividamento”, afirma o educador financeiro.

Um retrato da desigualdade estrutural

O Brasil figura entre os países com maior concentração de riqueza do mundo, segundo o Global Wealth Report. Uma pequena elite concentra uma fatia expressiva do patrimônio nacional, enquanto a maioria depende quase exclusivamente da renda mensal para sobreviver.

“O Brasil não é um país pobre em riqueza total, mas é extremamente desigual na sua distribuição. Isso explica por que convivemos com números macroeconômicos robustos e, ao mesmo tempo, com uma população financeiramente frágil”, resume Charone.

O impacto no cotidiano das famílias

A baixa formação de patrimônio limita escolhas fundamentais: investir, empreender, mudar de carreira ou até planejar a aposentadoria. Sem uma base mínima de reservas, o risco financeiro se torna parte permanente da vida.

“Sem patrimônio, não há proteção. E sem proteção, qualquer crise vira um problema grave. Educação financeira e planejamento de longo prazo não são luxo; são instrumentos de sobrevivência econômica”, conclui André Charone.

Mais do que estatísticas, os dados revelam um desafio urgente para o país: transformar renda em patrimônio real, reduzindo a dependência do crédito e criando condições para que mais brasileiros consigam, de fato, construir segurança financeira ao longo da vida.

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