Com quase US$ 9 trilhões em patrimônio prestes a mudar de mãos no Brasil, falta de planejamento estruturado pode transformar heranças bilionárias em conflitos, perdas fiscais e fragilidade patrimonial
O Brasil vive uma das maiores transições patrimoniais da sua história. Empresários que construíram negócios nas décadas de 1990 e 2000 começam a se aproximar de processos de sucessão, venda de participação ou reorganização societária. Ainda assim, muitos chegam a essa fase com o patrimônio pessoal desestruturado, misturando finanças da empresa com a pessoa física e sem planejamento sucessório formalizado.
O movimento ocorre em um contexto global de transferência massiva de riqueza. Segundo o Global Wealth Report, o Brasil ocupa hoje a terceira posição no ranking mundial de volume de patrimônio a ser transferido entre gerações nas próximas décadas, são quase US$ 9 trilhões em transição. Mais do que um número expressivo, o dado marca um divisor de águas e reforça a urgência do planejamento patrimonial estruturado, especialmente para famílias que, muitas vezes pela primeira vez, enfrentarão os desafios e as responsabilidades de uma herança relevante.
De acordo com André Bobek, fundador e CEO da Mhydas Planejamento Financeiro, consultoria especializada em organização patrimonial e estratégia financeira, a ausência de planejamento estruturado não está relacionada à falta de recursos, mas a um modelo de gestão patrimonial que ficou para trás.
“O empresário brasileiro aprendeu a crescer no risco e na intuição. Isso funcionou para expandir o negócio, mas não necessariamente para proteger o patrimônio pessoal. Hoje, o ambiente regulatório, tributário e familiar é muito mais complexo”, afirma André Bobek.
Um dos principais pontos de atenção é a concentração excessiva do patrimônio na própria empresa. Em muitos casos, a maior parte dos ativos do empresário está vinculada ao negócio operacional, o que aumenta a exposição a ciclos econômicos, litígios e riscos societários. A discussão ganha ainda mais relevância diante das mudanças estruturais no sistema tributário brasileiro, impulsionadas pela regulamentação da Reforma Tributária do Brasil, que traz novas dinâmicas para reorganizações societárias e planejamento patrimonial. Além disso, estados vêm debatendo alterações em regras de ITCMD, o que pode impactar diretamente estratégias sucessórias nos próximos anos.
Sem planejamento prévio, empresários podem enfrentar pagamento de tributos acima do necessário, inventários prolongados, disputas familiares e perda de eficiência na gestão dos ativos. Em um cenário em que trilhões de dólares estão prestes a mudar de mãos no país, a ausência de estrutura deixa de ser apenas uma fragilidade individual e passa a representar um risco geracional.
Grande parte dos empresários mais antigos iniciou seus negócios em um ambiente econômico menos sofisticado e com menor pressão por governança. O foco estava na expansão operacional e na geração de caixa. A estruturação patrimonial veio como consequência, mas nem sempre como estratégia. Com a aproximação da sucessão familiar e de eventos de liquidez, como venda de participação ou entrada de investidores, cresce a percepção de que patrimônio acumulado não significa patrimônio protegido.
“O empresário costuma ter governança na empresa, mas não no próprio patrimônio. Quando chega a hora da sucessão, percebe que não há acordos formais, estrutura societária adequada ou organização tributária eficiente”, diz Bobek.
Para o fundador da Mhydas, o planejamento financeiro pessoal deve ser tratado como extensão da estratégia empresarial. O processo envolve diagnóstico patrimonial, organização societária, estruturação sucessória e definição de estratégias tributárias compatíveis com os objetivos familiares e empresariais.
Com projeção de faturamento de R$ 30 milhões e crescimento estimado de 30%, a consultoria observa aumento na procura por reorganização patrimonial preventiva, antes que eventos críticos obriguem decisões emergenciais. Em um país que está entre os líderes globais em volume de riqueza a ser transferida, a mensagem que ganha força no mercado é clara: acumular milhões exige visão empreendedora; garantir que eles atravessem gerações exige método, governança e estratégia.
