Dados do INCA revelam abismo entre regiões, com Sul e Sudeste se aproximando de 75% de sobrevida, enquanto no Norte o índice não ultrapassa os 50%; País deve registrar 7.560 novos casos em 2026
No Dia Internacional de Luta contra o Câncer Infantil (15/02), os dados da Estimativa 2026 do Instituto Nacional de Câncer (INCA) trazem um alerta contundente: o Brasil deverá registrar 7.560 novos casos de câncer em crianças e adolescentes por ano entre 2026 e 2028. Desse total, aproximadamente 3.960 casos ocorrerão em meninos (52,4%) e 3.600 em meninas (47,6%), representando um risco médio de 134,81 casos por milhão de crianças e adolescentes de 0 a 19 anos.
Embora represente cerca de 3% de todos os diagnósticos oncológicos em todo o mundo, o câncer infantojuvenil segue sendo a principal causa de morte por doença não acidental nessa faixa etária. E, segundo os dados do INCA, as chances de sobrevivência por aqui ainda dependem fortemente da região onde a criança nasce.
Enquanto a taxa média nacional de cura gira em torno de 64%, o Sul e o Sudeste já alcançam patamares próximos de 75% e 70%, respectivamente. No Norte, porém, a sobrevida não ultrapassa 50%, revelando um abismo persistente no acesso ao cuidado especializado.
“Essa diferença é inaceitável e reflete desigualdades que vão muito além do acesso geográfico. Enquanto em países desenvolvidos (Europa Ocidental, Canadá, EUA) as chances de cura superam 80%, temos regiões do Brasil onde metade das crianças com câncer não sobrevive. É um problema que exige urgência política e social”, afirma o oncopediatra Sidnei Epelman, diretor do Serviço de Oncologia Pediátrica do Santa Marcelina Saúde, e fundador e presidente da TUCCA (Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer).
Mapa do risco expõe falhas no diagnóstico
Pela primeira vez, a estimativa do INCA apresenta com maior detalhe a distribuição espacial da incidência do câncer infantojuvenil no país, a partir do Projeto OncoBrasil. O levantamento mostra variações importantes entre estados, associadas principalmente à capacidade diagnóstica, à organização da rede de atenção oncológica pediátrica e à qualidade da informação.
Estados do Sul, como Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, além de Pernambuco, Paraíba e São Paulo, aparecem com taxas mais elevadas, um indicativo de maior capacidade de identificar e registrar casos, enquanto outras regiões ainda convivem com subdiagnóstico.
Para Epelman, a diferença não está apenas na medicina disponível, mas em atrasos no diagnóstico, dificuldade de acesso a centros especializados, falta de exames moleculares e menor oferta de terapias modernas no sistema público. “Hoje já temos tecnologia para tratar pacientes e garantir níveis de resposta positiva idênticos aos padrões internacionais. O problema é que isso ainda não chega a todos. No Brasil, o CEP continua sendo um fator determinante para a sobrevivência”, afirma o especialista.
A percepção do oncopediatra é reforçada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que grande parte das mortes por câncer infantil em países de renda média poderia ser evitada apenas com diagnóstico oportuno e tratamento adequado.
Segundo o INCA, essas diferenças não significam necessariamente mais câncer nessas regiões, mas sim maior capacidade de detectar e registrar os casos, evidenciando que parte do Brasil ainda convive com subdiagnóstico:
- O Sul tem as maiores taxas estimadas (173,35 por milhão)
- Seguido pelas regiões Sudeste (145,11 por 1 milhão), Nordeste (26,53 por 1 milhão) e Centro-Oeste (118,54 por 1 milhão)
- O Norte tem a menor taxa (96,88 por 1 milhão)
- Na região Sul, o Paraná se destaca com 560 novos casos estimados e, no Sudeste, São Paulo estima 1.730 diagnósticos.
“Ter diagnóstico precoce é fundamental, mas é essencial lembrar que não basta diagnosticar cedo se a criança não tem acesso rápido a um centro capaz de fazer exames histológicos, moleculares, genéticos, de imagem e oferecer tratamento completo. Sem isso, a chance de cura também despenca”, pondera Epelman.
Tumores mais comuns e sinais de alerta
Na infância, predominam as leucemias e os tumores do sistema nervoso central, seguidos por linfomas, sarcomas de partes moles, neuroblastoma e retinoblastoma. Entre adolescentes, ganham peso os linfomas de Hodgkin e não Hodgkin, tumores de células germinativas e carcinomas.
Os sintomas iniciais costumam ser inespecíficos, o que dificulta o reconhecimento precoce:
- Palidez, cansaço extremo, hematomas e sangramentos podem indicar leucemia
- Ínguas persistentes acima de 3 cm (pescoço, virilha ou região supraclavicular) acendem alerta para linfomas
- Dores de cabeça frequentes associadas a vômitos e alterações neurológicas podem sinalizar tumores cerebrais
“O câncer em crianças e adolescentes é completamente diferente daqueles em adultos. São tumores embrionários, de crescimento muito rápido, mas que, quando tratados adequadamente e no tempo certo, têm altíssimas chances de cura. O problema é que nem todas as crianças brasileiras têm acesso ao que é necessário”, explica Epelman.
Avanços científicos contrastam com gargalos de acesso
Nas últimas décadas, a oncologia pediátrica avançou de forma significativa. Imunoterapia, anticorpos monoclonais, terapias-alvo e CAR-T para tumores hematológicos já permitem índices de cura próximos de 80% em centros de excelência.
“Hoje conseguimos personalizar tratamentos com base no perfil genético do tumor, usando drogas mais eficazes e menos tóxicas. Quando aplicamos isso ao paciente certo, no momento certo, os resultados são excelentes”, afirma o fundador e presidente da TUCCA.
O desafio é garantir que essas inovações cheguem a todo o país. “A medicina de precisão ainda é privilégio de poucos. No SUS, faltam incorporação tecnológica, pesquisa clínica pediátrica e financiamento adequado. Crianças não podem depender do CEP para sobreviver”, reforça.
Outro entrave é o baixo interesse em estudos focados em tumores pediátricos, já que crianças representam pequena parcela dos pacientes oncológicos. “São doenças raras do ponto de vista geral da saúde e apenas uma pequena parcela dos pacientes oncológicos são crianças ou adolescentes. Por isso, o poder público precisa assumir protagonismo, incentivando mais ensaios clínicos no Brasil e atraindo interesse da indústria farmacêutica. Sem isso, continuaremos atrasados”, conclui Sidnei Epelman.
O que precisa mudar para o Brasil chegar a 80% de cura
-
Diagnóstico mais rápido
Capacitação da atenção primária para reconhecer sinais precoces e encaminhar imediatamente para centros especializados.
-
Rede oncológica pediátrica integrada
Menos fragmentação entre estados e garantia de vagas reguladas em hospitais habilitados.
-
Acesso a exames modernos
Ampliação de testes moleculares, genéticos e de imagem no SUS.
-
Incorporação de novas terapias
Imunoterapia, terapias-alvo e CAR-T ainda chegam lentamente ao sistema público.
-
Mais pesquisa clínica pediátrica
Incentivos governamentais para atrair ensaios clínicos e acelerar a chegada de novas drogas.
Dados oficiais – INCA 2026–2028 | Câncer infanto-juvenil (0 a 19 anos)
Estimativa de novos casos anuais:
7.560 casos por ano no Brasil
– Meninos: 3.960 (52,4%)
– Meninas: 3.600 (47,6%)
– Risco médio nacional: 134,81 casos por milhão
(exceto pele não melanoma)
Tipos mais incidentes na infância:
- Leucemias
- Tumores do sistema nervoso central
- Linfomas
- Sarcomas de partes moles
- Neuroblastoma
- Retinoblastoma
Entre adolescentes, ganham peso:
- Linfomas de Hodgkin e não Hodgkin
- Tumores de células germinativas
- Carcinomas
(O INCA não divulga percentuais fechados por topografia para o grupo infanto-juvenil, apenas ranking por frequência.)
Diferenças regionais (taxas por 1 milhão – Projeto OncoBrasil / INCA):
Estados com maiores taxas:
- Paraná – 183,59
- Pernambuco – 172,36
- Rio Grande do Sul – ~168,1
- Santa Catarina – ~164,9
- Paraíba – 159,61
- São Paulo – 153,14
Faixas nacionais de incidência:
- 148,39 – 183,59 (mais alta)
- 123,18 – 148,38
- 108,73 – 123,17
- 63,50 – 108,72
Segundo o Instituto Nacional de Câncer, essas variações refletem principalmente:
- capacidade de diagnóstico
- organização da rede de atenção oncológica pediátrica
- qualidade da informação
- subdiagnóstico em parte do país, especialmente nas regiões Norte e Norte/Nordeste.
Panorama comparativo / sobrevida:
- Média nacional de cura: ~64%
- Sul e Sudeste: até 70%–75%
- Norte: não ultrapassa 50%
- Em países desenvolvidos, a sobrevida supera 80%.
A TUCCA (Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer) é uma organização fundada em 1998 pelo oncologista pediátrico Sidnei Epelman e pela sua esposa, a psicanalista Claudia Epelman (in memoriam) com a proposta de oferecer tratamento multidisciplinar de excelência para pacientes em situação de vulnerabilidade e aumentar as taxas de cura.
Em parceria com o Santa Marcelina Saúde, mantém o primeiro e único serviço de oncologia pediátrica da Zona Leste e oferece, gratuitamente, um tratamento integral baseado no diagnóstico rápido e preciso e na utilização de terapias de ponta, equipe altamente qualificada e medicamentos de alto custo.
A assistência vai além do tratamento médico e inclui o cuidado social e emocional a partir de uma equipe multidisciplinar que acompanha os pacientes e suas famílias durante todo o tratamento. Esse olhar humanizado tem atingido excelentes resultados.
A jornada de cuidado oferecida pela TUCCA é integralmente mantida por doações, patrocínios e pela arrecadação por meio de concertos, leilões, jantares e bazares beneficentes.
Os programas da TUCCA em parceria com o Santa Marcelina Saúde já beneficiaram mais de 5.500 jovens, alcançando altos índices de cura comparáveis aos centros de referência no tratamento do câncer infantojuvenil do Brasil, Europa e Estados Unidos.
A TUCCA oferece:
- Diagnóstico preciso e tratamento integral com medicamentos de alto custo;
- Equipamentos de última geração;
- Assistência multidisciplinar;
- Hospice: assistência especializada para pacientes em cuidados paliativos;
- Transporte gratuito e de qualidade;
- Laboratório de Patologia Molecular;
- Centro de Atenção Integrada à Criança com Retinoblastoma.
