Especialista afirma que a gestão dos riscos psicossociais deixou de ser apenas exigência regulatória e passou a influenciar diretamente produtividade, retenção de talentos e resultados financeiros das empresas
A saúde mental dos colaboradores e da liderança entrou definitivamente na agenda estratégica das empresas com a atualização da Norma Regulamentadora nº 01 (NR-01), que passou a exigir a inclusão dos riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). A nova exigência acende um alerta no setor corporativo não apenas pelas multas administrativas, mas pelos possíveis prejuízos trabalhistas e financeiros que podem impactar diretamente o caixa das organizações.
Quem chama atenção para esse cenário é a psicóloga e especialista em saúde mental voltada para empresários, Simone Arruda. Segundo ela, muitos ainda enxergam a norma apenas como obrigação legal, quando na prática o maior custo está nos efeitos indiretos da falta de gestão emocional nas equipes. “Afastamentos por transtornos mentais, aumento do turnover, conflitos internos e processos trabalhistas podem gerar prejuízos muito superiores às penalidades previstas”, afirma.

Multa não é o maior risco financeiro
Levantamentos técnicos indicam que multas administrativas por falhas na NR-01 podem variar, em média, de cerca de R$1,7 mil a R$8 mil, podendo chegar a aproximadamente R$16 mil em casos de reincidência. No entanto, especialistas alertam que o maior impacto econômico está nos custos indiretos. Um único afastamento por transtornos mentais pode gerar perdas entre R$18 mil e R$25 mil considerando encargos, queda de produtividade e substituição do colaborador.
A rotatividade também pesa no caixa das empresas. Em um cenário comum, a substituição de um funcionário pode custar de três a seis salários, podendo gerar prejuízos anuais entre R$ 45 mil e R$ 90 mil em empresas com cerca de 30 colaboradores e índices elevados de turnover. Além disso, ações por assédio moral podem resultar em condenações individuais entre R$ 5 mil e R$ 50 mil, podendo ultrapassar R$ 100 mil em casos coletivos.
Para Simone Arruda, a saúde mental da liderança precisa ser tratada como variável estratégica dentro da gestão empresarial. “Quando o empresário ignora sinais de sobrecarga emocional e conflitos internos, o reflexo aparece nos indicadores financeiros. Não é apenas uma pauta humana, é uma pauta de negócio”, destaca.
O que muda com a NR-01
A partir das novas diretrizes da norma, empresários já precisam implementar ações como a identificação e classificação dos riscos psicossociais, elaboração de planos de ação preventiva, registro de evidências das medidas adotadas e monitoramento contínuo do ambiente organizacional. A expectativa é que a fiscalização avance nos próximos meses, exigindo maior preparo das empresas.
Na prática, especialistas recomendam que as empresas iniciem diagnósticos internos sobre clima organizacional e fatores de pressão emocional, capacitem lideranças para lidar com conflitos e saúde mental das equipes, revisem rotinas que geram sobrecarga e estabeleçam processos contínuos de acompanhamento estratégico. Empresas que conseguem estruturar esse processo tendem a reduzir afastamentos, melhorar o desempenho das equipes e evitar aumentos de encargos previdenciários, que podem representar até R$ 36 mil anuais adicionais em determinadas situações relacionadas ao Fator Acidentário de Prevenção (FAP).
Segundo Simone Arruda, a adequação à nova atualização da NR-01 não deve ser vista apenas como obrigação regulatória, mas como uma oportunidade de aumentar os lucros. “Equipes emocionalmente saudáveis tendem a apresentar maior produtividade, menor rotatividade e mais clareza nas decisões, o que impacta diretamente o crescimento sustentável das empresas”, finaliza.
