Caso da apresentadora expõe os desafios da manutenção do peso após a suspensão de medicamentos à base de GLP-1
A apresentadora americana Oprah Winfrey, de 71 anos, relatou ter ganhado cerca de 9 kg depois de interromper o uso das chamadas canetas emagrecedoras, medicamentos injetáveis baseados em GLP-1, amplamente usados para perda de peso. Oprah contou que começou o tratamento em 2023, quando chegou a pesar 107 kg, e chegou a perder 23 kg com o uso da medicação, antes de decidir pausar as aplicações no início de 2025.
Em entrevista ao programa “Today”, a americana explicou que manteve uma rotina saudável durante o período sem a medicação, incluindo alimentação equilibrada e exercícios, mas ainda assim viu o peso voltar. “Fiquei sem tomar os medicamentos durante todo o ano passado e engordei 9 quilos porque queria testar”, disse Oprah, refletindo sobre a dificuldade de manter os resultados sem o apoio farmacológico.
O caso reforça achados científicos recentes que mostram que a interrupção de tratamentos com análogos de GLP-1 pode levar a uma recuperação de peso mais rápida do que a observada em quem perde peso apenas com mudanças de hábitos. Os dados mostram que a obesidade é uma condição crônica que frequentemente demanda acompanhamento contínuo, e que a simples suspensão do medicamento pode resultar em ganho de peso significativo.
O reganho de peso é a resposta do organismo
O ganho de peso após a suspensão das canetas emagrecedoras não deve ser interpretado como falta de disciplina ou esforço individual. Os análogos do GLP-1 atuam diretamente nos mecanismos hormonais ligados à saciedade, ao controle do apetite e ao gasto energético, promovendo alterações metabólicas que tendem a se reverter quando o medicamento é retirado.
“Quando há a interrupção da medicação ou depois de se perder muitos quilos, principalmente, o paciente volta a ter uma diminuição da queima calórica e uma mudança do controle de fome e saciedade, que vai levar a um ganho de peso posterior. Então, esse é um fator esperado”, explica Alessandra Rascovski, endocrinologista e autora do livro “AtmaSoma – O equilíbrio entre a ciência e o prazer para viver mais e melhor”.
Quando a retirada acontece de forma abrupta, o apetite tende a se intensificar, aumentando o risco de compulsão alimentar e de um reganho mais acelerado, especialmente nos casos em que o tratamento não foi acompanhado por mudanças alimentares e comportamentais estruturadas.
Obesidade não é uma condição transitória
O relato de Oprah reforça a compreensão de que a obesidade não pode ser tratada como um problema passageiro. “Assim como a diabetes, a condição é uma doença crônica recidivante, que muitas vezes não pode ser tratada somente com mudança de hábitos”, afirma Alessandra.
Estudos indicam que pessoas que interrompem o uso das canetas emagrecedoras podem recuperar peso em ritmo mais acelerado do que aquelas que emagrecem apenas com dieta e atividade física. Em média, o reganho pode chegar a 0,8 kg por mês após a suspensão da medicação, o que ajuda a explicar por que muitos pacientes retornam ao peso anterior em cerca de um ano e meio.
Nesse contexto, o foco do tratamento passa a ir além da perda inicial e se desloca para a fase de manutenção e no acompanhamento após a retirada do medicamento, consideradas decisivas para a sustentação dos resultados ao longo do tempo.
Planejamento, acompanhamento e o pós-uso da medicação
Segundo Alessandra, a interrupção do uso das canetas emagrecedoras precisa ser encarada como parte do tratamento, e não como seu fim. Estratégias como ajustes graduais da medicação, acompanhamento clínico contínuo, prática regular de atividade física e mudanças alimentares estruturadas tendem a reduzir o risco de reganho significativo de peso.
A endocrinologista também chama atenção para os riscos do uso sem indicação médica. “O uso sem indicação, por outro lado, acende alertas. A automedicação e o consumo motivado por fins estéticos podem trazer riscos metabólicos e efeitos adversos”, ressalta. “A utilização prolongada sem controle adequado pode alterar funções metabólicas, resultando em complicações, além de causar possíveis efeitos colaterais”.
Ao comentar casos como o de Oprah, a médica destaca que a discussão central não está em simplesmente parar ou continuar a medicação, mas em como conduzir o acompanhamento após a suspensão. “A grande verdade é entender que reganho de peso é a regra, não a exceção, e que é sobre isso que deveríamos trabalhar no pós-uso da medicação, como vai ser seguido individualmente para cada paciente, para que ele continue tendo o resultado”, conclui.
