De acordo com a Climatempo, já se observa o fenômeno do El Niño costeiro, que eleva volume de chuvas e prolonga o deslocamento de umidade entre regiões do País. Variabilidade climática por conta do fenômeno exige inteligência aplicada à operação
O outono no Brasil, que se iniciou em 20 de março e se estende a 21 de junho, começa com um período de neutralidade das temperaturas, mas já registrará o avanço do El Niño, trazendo mais ocorrências de chuvas, especialmente na região Sul, segundo análise da Climatempo – a maior e mais reconhecida empresa de consultoria meteorológica e de previsão do tempo do Brasil e da América Latina. A formação do El Niño amplia a variabilidade climática, o que impacta as previsões e os mais diversos setores da economia, exigindo inteligência aplicada à operação.
“O outono de 2026 começa tecnicamente sem influência de El Niño e nem de La Niña no oceano Pacífico Equatorial, mas um El Niño costeiro já é observado no litoral do Peru e do Equador”, explica Josélia Pegorim, meteorologista da Climatempo. Ela observa que mudanças na circulação de ventos sobre o Brasil, associadas ao El Niño costeiro, ajudam a aumentar a chuva, especialmente sobre o Rio Grande do Sul, e a prolongar o deslocamento de massas de ar carregadas de vapor d’água da Amazônia para o Centro-Oeste e ao Sudeste do Brasil. “Isto vai garantir ar quente e úmido, que é um combustível para manter as pancadas de chuva por mais tempo nessas regiões”, afirma.
Com as chuvas persistentes, o impacto direto será nas operações a céu aberto de setores como mineração, infraestrutura e nas mais diversas concessionárias de rodovias e de energia, especialmente dos setores de transmissão e distribuição. Por outro lado, espera-se uma recuperação de reservatórios do setor de saneamento e das hidrelétricas pelo menos até maio, quando as previsões indicam redução das chuvas.
Considerando que o início do outono e a formação do El Niño traz flutuações naturais e temporárias no clima, que pressionam diretamente as operações das empresas, a inteligência climática aplicada à operação torna-se ainda mais necessária. Na prática, ela contribui para encontrar cenários climáticos mais precisos, tomar decisões mais seguras, reduzir exposição a riscos operacionais e regulatórios e integrar o clima à lógica de planejamento e execução das empresas.
Com soluções estrategicamente desenhadas para a realidade de cada setor, a Climatempo transforma dados climáticos em inteligência aplicada, a fim de conectar as previsão com a operação de seus clientes.
Para isso, segue monitorando as atualizações dos modelos climáticos globais, bem como os dados e análises fornecidos pelo CT2W, modelo proprietário de previsão meteorológica avançado da empresa, que combina informações provenientes dos diferentes modelos meteorológicos para fornecer previsões mais detalhadas e precisas conforme o El Niño evolui.
Atuando em conjunto com o Sistema de Monitoramento e Alerta (SMAC), esse monitoramento proporciona, em tempo real, relatórios detalhados e análises de risco para que empresas e governos possam realizar o planejamento estratégico, a otimização de recursos e a tomada de decisão mais assertiva com relação à evolução do fenômeno e seus impactos sobre os negócios, as infraestruturas críticas e a população em geral.
As diferentes fases do El Niño
O El Niño costeiro é um aquecimento acima do normal registrado de forma concentrada no litoral norte do Peru e do Equador. No Brasil, o fenômeno facilita a ocorrência de períodos de maior aquecimento no centro-sul. Já o El Niño clássico, deve se formar no final do outono ou começo do inverno, tendo como principais efeitos o aumento da chuva sobre áreas da região Sul, a maior irregularidade da chuva e o aumento da temperatura no Centro-Oeste e no Sudeste, e a diminuição das precipitações no Norte e no Nordeste do Brasil.
“Possivelmente, o El Niño este ano terá um início acelerado, e a expectava é de que seja, no mínimo, um evento climático com intensidade de moderada a forte”, afirma Vinicius Lucyrio, meteorologista da Climatempo. “As projeções oficiais mais recentes da NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica Nacional/EUA) já indicam probabilidade maior de um El Niño moderado ou mais intenso para o período agosto, setembro e outubro. Normalmente o pico costuma ser entre novembro e janeiro.”
Lucyrio destaca que uma das maiores preocupações com El Niño é o aumento dos eventos de temporais severos, por conta do ar e do oceano mais quentes. O meteorologista lembra que os dois anos mais quentes já registrados no planeta Terra foram 2024 e 2023, anos marcados pela influência de um forte El Niño, quando esses incidentes climáticos foram mais frequentes.
O El Niño, decorrente do aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico equatorial, deixa o ar mais quente e faz com que a chuva ocorra de forma irregular na maior parte do País, ao mesmo tempo que aumenta as chuvas no Rio Grande do Sul e reduz no extremo norte brasileiro, onde a Amazônia e Nordeste ficam mais propensos a seca severa.
Ondas de calor
Análises da Climatempo indicam que o período mais frio este ano deve ter um maior número de incursões de ar frio com maior abrangência sobre o Brasil restrito aos meses de maio e junho, mas essa chance diminui gradualmente a partir de julho com o desenvolvimento mais consistente do El Niño e a junção das condições oceânicas com a atmosfera.
“A tendência é termos extremos de calor e tempo seco a partir do final do inverno e a primavera de 2026. Isto mostra uma certa similaridade com as condições de 2023, no sentido de que poderemos ter grandes, frequentes, longas e intensas ondas de calor em grande parte do interior do País”, explica o meteorologista.
Neste cenário de temperaturas acima da média previstas, deverá haver maior consumo e demanda de energia, impactando especialmente a geração e os preços do mercado de curto prazo.
El Niño traz mais instabilidade na primavera
Em contrapartida, o Sul do País fica mais sujeito a tempestades e mais nublado já no inverno. De acordo com Lucyrio, os eventos de chuva abrangente, com risco de enchentes, além dos fortes temporais e CCMs (Complexos Convectivos de Mesoescala) tendem a aumentar expressivamente na primavera. Parte desta instabilidade da Região Sul poderá ser sentida também nos estados do Mato Grosso do Sul e São Paulo.
As previsões apontam ainda que a cheia dos rios na Amazônia em 2026 deve ser maior do que a do ano passado, seguida por um período de vazante muito mais acentuado. “Entretanto, ainda não dá para afirmar se isso vai comprometer a navegabilidade dos rios da região. É bem provável que tenhamos longos e fortes períodos de calor e tempo seco por lá”, avalia.
De acordo com Vinicius Lucyrio, é possível que o início do próximo período úmido ‘engane’ em algumas regiões. “Poderemos ter algumas pancadas de chuva atípicas entre agosto e setembro no Brasil Central, no sudeste do Pará, em Minas Gerais, em São Paulo e no interior nordestino. Mas isso não indicará o retorno da chuva, e muito menos a regularidade”, afirma. Segundo o meteorologista da Climatempo, “o começo do próximo período de chuvas deve ter um padrão muito irregular e insuficiente para repor a umidade do solo e dos reservatórios, o que pode levar a problemas de abastecimento, geração de energia hidrelétrica e instalação de algumas culturas.”



