Psicólogo Marcelo Santos Solidade da Faculdade Santa Marcelina explica como a pressão social por produtividade transforma expectativas em frustrações e aponta caminhos mais sustentáveis
Com a chegada de um novo ano, cresce a sensação coletiva de que é preciso se reinventar, mudar hábitos, alcançar resultados e cumprir um extenso conjunto de metas pessoais. Entretanto, para muitas pessoas, esse entusiasmo dura pouco, abrindo espaço para frustração, cobrança e sofrimento emocional. Para o professor Marcelo Santos Solidade, do curso de Psicologia da Faculdade Santa Marcelina, isso acontece porque grande parte dessas metas não nasce do desejo real do sujeito, mas do olhar do outro e da pressão social por produtividade.
Segundo o especialista, estamos em uma cultura orientada para a produtividade constante, influenciada por discursos que valorizam desempenho e metas grandiosas. “Vivemos em uma sociedade em que somos guiados por ideais de produtividade o tempo inteiro, que ignoram limites e, muitas vezes, levam à exaustão. As metas de Ano Novo também seguem esse modelo”, afirma Solidade.
Ele explica que, quando o objetivo não é fruto de um desejo próprio, torna-se difícil sustentá-lo ao longo do tempo. “É muito difícil manter algo que não nasce do próprio desejo. Assumir uma meta implica responsabilidade e disposição para atravessar imprevistos.” O início do ano costuma despertar entusiasmo e a sensação de um novo ciclo. Para o psicólogo, esse efeito é comum, mas não necessariamente duradouro. “Definir uma meta produz esperança e a impressão de que agora tudo será diferente”.
Porém, quando a meta passa a funcionar como obrigação guiada pelo olhar do outro, o entusiasmo se transforma em angústia, segundo o especialista. A comparação social, especialmente nas redes, agrava esse processo. “A comparação é sempre enganosa, porque não comparamos realidades, mas imagens. Isso coloca o sujeito em posição de falta e fragiliza a continuidade das metas”.
Sobre a criação de hábitos sustentáveis, o professor destaca que eles precisam ser flexíveis e conectados ao desejo singular de cada pessoa. “Hábitos não devem ser rígidos. Eles precisam suportar pausas, falhas e permitir retomadas. Quanto mais idealizadas forem as metas, menos sustentáveis se tornam.” O profissional reforça que mudar de rota não deveria ser encarado como fracasso. “Redefinir ou abandonar uma meta no meio do caminho é sinal de coragem. Ajustar a rota significa reconhecer limites e sustentar o próprio desejo. A culpa é sempre uma dívida com o outro. Quando o sujeito redireciona sua meta pelo próprio desejo, pratica um ato de autenticidade”, conclui.
