Pesquisa da HSR Health com 100 cuidadores não profissionais aponta que 67% acumulam cuidado e trabalho e 32% não têm tempo para si
Cuidar de alguém no Brasil tem se consolidado como uma atividade de tempo integral. Uma pesquisa nacional realizada pela HSR Health, membra do Grupo HSR Specialist Researchers, mostra que quase metade dos cuidadores brasileiros dedica nove horas ou mais por dia aos cuidados, em uma rotina que envolve alimentação, higiene, administração de medicamentos e supervisão constante.
O estudo ouviu 100 cuidadores não profissionais de diferentes regiões do país e traça um retrato de quem sustenta, no dia a dia, grande parte do cuidado doméstico no Brasil. A maioria dos entrevistados é formada por mulheres em idade produtiva que cuidam de familiares próximos, principalmente idosos. Setenta e dois por cento cuidam de pessoas com 60 anos ou mais e 69% são mulheres. Quase a totalidade dos entrevistados- 93%- está em idade produtiva, tendo entre 35 e 54 anos. A grande a maioria (97%) cuida de parentes e mais da metade atua como cuidador há mais de três anos.
A pesquisa também evidencia que o cuidado raramente é uma tarefa isolada. A conciliação com trabalho e vida pessoal impõe uma reorganização profunda da rotina e, em muitos casos, reduz ou elimina momentos de descanso e lazer. Quarenta e seis por cento dos cuidadores dedicam nove horas diárias ou mais ao cuidado e 67% conciliam essa função com outra atividade profissional. Esse contexto leva a um cenário de pouco tempo de autocuidado e 32% afirmaram que não sobra tempo para si.
Relatos colhidos ao longo da pesquisa ajudam a dimensionar essa realidade. Uma das participantes resume a experiência dizendo que “o dia começa e termina cuidando. Sobra pouco tempo até para respirar”. Outra cuidadora relata que “não tem como ter vida pessoal, porque a pessoa não pode ficar sozinha e o cuidado ocupa o dia inteiro”.
“O Brasil está envelhecendo rapidamente e o cuidado deixou de ser um tema restrito à saúde para se tornar uma questão estrutural da vida social. Hoje, o maior ‘hospital’ do país é o próprio lar, operado por familiares sem preparo técnico, que aprendem na prática, sob forte pressão emocional e física”, afirma Lucas Pestalozzi, sócio e head de Inovação da HSR Specialist Researchers.
Ao dimensionar a carga horária e a intensidade do cuidado, o estudo lança luz sobre uma realidade pouco visível, mas presente em milhões de lares brasileiros. A jornada de quem cuida reforça a necessidade de ampliar o debate público sobre o cuidado como uma questão coletiva, com efeitos diretos sobre a saúde da população e a organização da vida social. “Não se trata apenas de tempo dedicado, mas de um conjunto de tensões: a ambiguidade de papéis, o dilema entre trabalhar e cuidar, a culpa constante e a falta de apoio. Com 88% sem suporte emocional e muitos sem substitutos, o risco de exaustão é real, o que torna urgente ampliar redes de apoio e soluções práticas para esses cuidadores”, finaliza Lucas.



