Confira artigo de Raul Corrêa da Silva, Chairman e CEO da BDO
O mundo atual é definido por uma volatilidade inédita. Entre guerras, disputas fiscais e um ambiente regulatório em constante transformação, a previsibilidade dos negócios tornou-se um luxo. Para o líder de hoje, e especialmente para o líder brasileiro – um verdadeiro gestor de crises desde sempre –, a resiliência não é uma qualidade, mas uma estratégia de sobrevivência e crescimento.
Afinal, como eu sempre digo, o dinheiro não some, ele só troca de lado. E é papel da liderança identificar onde estão as novas oportunidades. A esse cenário global e regulatório, somam-se as incertezas políticas internas, sobretudo em anos de eleições presidenciais. No Brasil, esse ciclo eleitoral sempre traz consigo um período de cautela e hesitação nos investimentos, com empresas e mercados aguardando a definição do futuro econômico e ao ambiente de negócios do país.
O líder resiliente entende que esse é mais um fator de risco cíclico a ser planejado, não paralisado. É fundamental manter a serenidade, focar nos fundamentos do negócio e se antecipar a diferentes cenários macroeconômicos, em vez de suspender decisões estratégicas.
Em um cenário de incertezas, o maior risco que uma organização pode enfrentar é a perda da coesão cultural. Uma empresa forte é aquela com uma cultura forte, e essa cultura é a âncora que impede o crescimento de se tornar fragilidade.
Acredito que a cultura é o nosso jeito de fazer as coisas, de cuidar das pessoas e dos clientes. É a identidade de cada organização. E isso não se transmite por e-mail ou por meio de um manual cheio de regras. Por isso, sou um grande defensor do trabalho híbrido em uma escala que permite o contato pessoal, o “olho no olho”. É nesse espaço físico que transmitimos história, valores, e garantimos o treinamento eficaz. Quando o turnover diminui e a performance cresce, sabemos que a cultura está sendo assimilada e que nossos colaboradores compartilham dos mesmos valores.
Há 20 anos e hoje, o maior desafio de um líder segue sendo inspirar e gerir pessoas. No nosso setor, isso é ainda mais crítico. Nosso trabalho exige profundo conhecimento técnico, regulatório e de mercado, algo que leva tempo e não se aprende apenas na faculdade. O desafio reside na gestão da expectativa de ascensão rápida das gerações mais jovens, que estão acostumadas à velocidade da informação. É fundamental trabalhar essa ansiedade e, ao mesmo tempo, aprender com eles.
Aprendemos que a nova geração não busca apenas um emprego, busca propósito. Ter valores claros e ser uma firma sólida é um diferencial poderoso. Para reter esses talentos, é importante investir em formação da base para cima, mantendo padrões que permitam crescer sem perder qualidade e respeitando o tempo de maturação necessário para consolidar processos e fortalecer valores.
A verdadeira resiliência nasce da capacidade do líder de gerir mundos distintos. A chave está em delegar bem, confiar nas equipes e estabelecer rotinas claras. Construir equipes autônomas e comprometidas, que permitam ao líder focar sua atuação no que é mais estratégico deve sempre ser o foco.
A liderança resiliente em 2026 não é sobre sobreviver a crises, mas sobre utilizar a crise como combustível para o crescimento. É sobre ter a cabeça no lugar para identificar oportunidades, enquanto se fortalece o ativo mais valioso de qualquer negócio: a confiança construída com as pessoas, sustentada por uma cultura forte e por líderes que dão o exemplo.
