Saúde bucal dos povos indígenas: panorama atual e as condições da população

Saúde bucal dos povos indígenas: panorama atual e as condições da população / Imagem gerada por Inteligência Artificial
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Proteção de território garante saúde bucal de povos indígenas

O Brasil é um país de proporções continentais e tem uma população diversa em todo o território nacional. Dados do Censo de 2022 indicam que temos 1,7 milhão de indígenas no país, que vivem em 14% das terras. Do total de área ocupada, 98% concentra-se na Amazônia Legal. Os povos indígenas são assistidos pelo Subsistema de Atenção à Saúde Indígena, integrado ao SUS por meio da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas.

O presidente da Câmara Técnica de Saúde Coletiva do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP), Dr. Paulo Frazão, explica que a população indígena com maior contato externo vem sofrendo com as alterações nos padrões alimentares, o que causou drásticas transformações na saúde desse grupo.

“A mortalidade proporcional por idade é mais desfavorável em relação ao restante da população brasileira, ou seja, os indígenas morrem mais cedo”, afirma o presidente da Câmara Técnica de Saúde Coletiva.

Na saúde bucal, a população geral passa por um declínio de casos de cárie em crianças e adolescentes em idade escolar, acima de 6 anos. Em contrapartida, certas populações indígenas enfrentam um processo de aumento significativo da experiência de cárie dentária entre uma geração e outra da mesma etnia.

Dr. Paulo Frazão esclarece que a proteção do território é o que garante a proteção contra as doenças e a preservação das formas de vida e de existência harmônica com a natureza. Essa proteção contribui para a garantia de uma dieta livre de produtos industrializados com excesso de gordura e açúcar. Os produtos citados prejudicam gravemente as condições bucais dos indígenas.

“As ações de saúde bucal promovidas pelos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) colaboram para controlar o dano decorrente das lesões de cárie, mas não conseguem deter a perda dentária precoce”, informa o cirurgião-dentista.

Precisa melhorar 

Nos programas de proteção à saúde bucal dos indígenas existem demandas urgentes que precisam ser enfatizadas, como a prevenção da cárie. O profissional afirma que a participação indígena nas decisões é necessária para o fortalecimento das ações. Com isso, deve-se valorizar seus saberes tradicionais e incorporar abordagens interculturais que respeitam seus modos de vida. Iniciativas assim podem contribuir para a redução da desigualdade na ocorrência de doenças entre indígenas e não-indígenas.

O Dr. Paulo Frazão ressalta que é necessário treinar os agentes de saúde indígena e manter um programa de escovação dental diária com creme dental fluoretado nos distritos sanitários. A distribuição de produtos de higiene bucal é importante, sendo os mesmos de qualidade e recomendados por cirurgiões-dentistas, como pastas fluoretadas e escovas de dentes com cerdas adequadas.

Dificuldades

“Os profissionais que prestam cuidados relatam que os povos indígenas enfrentam muitas ameaças ligadas à mineração e garimpo legal, à invasão de terras, desmatamento e queimadas, entre outras atividades que destroem o meio ambiente e prejudicam a subsistência e a saúde das comunidades. Essas situações afetam a saúde bucal, porque reduzem a disponibilidade de alimentos “in natura”, gerando alterações nos costumes da etnia que podem levar ao aumento da frequência diária de ingestão de carboidratos e produtos ultraprocessados, aumentando o risco de cárie”, diz Dr. Paulo Frazão.

Características e técnicas do cirurgião-dentista

As principais características que um cirurgião-dentista precisa ter para lidar com povos originários são comprometimento social e ético-político para se adaptar e lidar com as condições adversas e recursos limitados da população. Também é indispensável respeitar a autonomia dos indígenas; o direito ao acesso e esclarecimento das informações, para que tudo seja feito com consentimento durante as ações propostas.

Os profissionais da Odontologia devem saber as técnicas adequadas para lidar com os indígenas, juntamente com uma equipe adequada dos Distritos Especiais de Saúde Indígena, visto que são mais de 270 idiomas falados por mais de 300 etnias, o que corresponde a especificidades diferentes de cada grupo. As equipes devem ser compostas por profissionais de diferentes formações para uma abordagem interdisciplinar com intérpretes e tradutores.

“Intérpretes e tradutores são importantes para superar essas barreiras. Os profissionais de saúde bucal podem aprender os principais verbos e os nomes que a etnia dá para os problemas de saúde e de saúde bucal, para os alimentos, para as partes do corpo. Ao mesmo tempo, podem mostrar aos indígenas os nomes adotados na língua portuguesa para indicar as doenças bucais e os produtos de higiene, que atuam na proteção da dentição”, sugere o cirurgião-dentista.

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