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Seguro rural expõe fragilidade da proteção no campo e pressiona debate sobre crédito e financiamento

Seguro rural expõe fragilidade da proteção no campo e pressiona debate sobre crédito e financiamento / Foto: Randy Fath / Unsplash Seguro rural expõe fragilidade da proteção no campo e pressiona debate sobre crédito e financiamento / Foto: Randy Fath / Unsplash
Foto: Randy Fath / Unsplash

Em Brasília, representantes do governo, do Congresso e do mercado defenderam mudanças no modelo de cobertura diante do avanço do risco climático e da nova dinâmica de capital no agronegócio

O seguro rural entrou de vez na agenda do agronegócio brasileiro. Em Brasília, representantes do governo, do Congresso e do mercado convergiram na avaliação de que o modelo atual já não responde à dimensão da produção nacional nem ao avanço dos riscos climáticos, financeiros e logísticos que pressionam o campo.

O pano de fundo da discussão é claro: o agro brasileiro passou a operar com maior exposição a eventos extremos, crédito mais caro e participação crescente de capital privado, enquanto a estrutura de proteção segue considerada insuficiente. O resultado, na prática, é um sistema que ainda reage às perdas depois do dano, em vez de se antecipar a elas com cobertura mais ampla e instrumentos permanentes de mitigação de risco.

Na abertura do seminário, o presidente da CNseg, Dyogo Oliveira, criticou esse desequilíbrio ao observar que o país ainda privilegia o crédito em vez do seguro. “O produtor perde uma safra e a solução é renegociar as dívidas”, declarou. Em seguida, reforçou o impacto dessa lógica: “No fim do dia, o produtor paga o custo do crédito, da inadimplência e o custo climático”.

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Dyogo também chamou atenção para a disparidade entre os recursos mobilizados para o crédito rural e o espaço reservado ao seguro. “Para economizar algumas centenas de milhões no seguro, o governo acaba gastando dezenas de bilhões em renegociações”, pontuou, ao classificar essa dinâmica como uma “miopia” da política pública.

O presidente da ABAG, Ingo Plöger, deslocou o foco para a singularidade da produção brasileira. “Aqui, uma safra empurra a outra. É uma dinâmica intensa, praticamente em ‘just in time’”, observou. Na visão dele, essa característica deixa o agro nacional mais suscetível a choques externos e exige respostas regulatórias adaptadas à realidade tropical. “Precisamos de legislações que atendam a essa economia tropical”, acrescentou.

Já o presidente da Acrefi, Tadeu Silva, destacou a mudança no perfil do financiamento do setor. “O funding está mudando. Ganham espaço os instrumentos de mercado de capitais e operações privadas”, ressaltou. Para ele, a retração do seguro não elimina o risco sistêmico. “O risco não desaparece quando o seguro recua, ele apenas se redistribui”.

Representando a Confederação Nacional dos Municípios, Elinton Honorato também inseriu os entes locais na discussão. Segundo ele, a pauta tem peso direto sobre o desenvolvimento regional. “Os temas tratados aqui são de extrema relevância e convergem com a luta da CNM pelos municípios”, registrou.

No Congresso, a senadora Tereza Cristina defendeu que o seguro rural deixe de ocupar posição periférica na política agrícola. “O seguro é hoje o principal pilar. Se resolvermos o seguro, começamos a resolver o crédito”, argumentou. Ao criticar a dependência anual das discussões do Plano Safra, ela foi enfática: “A agricultura brasileira não pode ficar presa a uma discussão pontual todos os anos”. Para a parlamentar, instrumentos como fundos de catástrofe e novos modelos de resseguro precisam avançar. “O custo do seguro rural é muito pequeno diante do benefício que traz para o país”.

O primeiro painel do encontro, mediado por Renato Buranello, vice-presidente da ABAG, ampliou a discussão sobre financiamento e gestão de risco. Fabiana Perobelli, executiva de relacionamento com clientes da B3, avaliou que o setor precisa ampliar suas alternativas de captação. “O agro precisa de uma nova avenida de financiamento”, comentou.

Na mesma mesa, João Rabelo, diretor de Novos Negócios do IRB(Re), citou experiências internacionais em que o Estado absorve parte dos riscos mais severos para equilibrar o sistema. “Isso permite uma precificação mais equilibrada e reduz o custo para quem está na ponta”, explicou. Octaciano Neto, sócio da Zera.Ag, reforçou que a mudança já está em curso: “Hoje, grande parte do financiamento já vem fora do Plano Safra”.

A agenda legislativa apareceu com força na fala do deputado Pedro Lupion, presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária. “Precisamos de um seguro condizente com a produção brasileira”, cobrou. Ele relacionou o tema ao ambiente mais amplo de negócios no campo, marcado por insegurança jurídica, juros elevados e impacto geopolítico sobre custos. “A guerra não chegou com bombas, mas afetou profundamente o custo de produção”, ressaltou.

No segundo painel, voltado à inovação, Bruno Alves, diretor de Tecnologia da BB Seguros, destacou o papel dos dados e das ferramentas digitais na avaliação de risco. “Hoje conseguimos ser muito mais precisos na avaliação de risco”, relatou. Logo depois, o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Guilherme Campos, enquadrou o tema em nível institucional. “O seguro é uma questão de Estado, não de governo”, frisou. Em seguida, deixou um alerta: “Se não houver essa mudança, continuaremos correndo atrás de renegociações todos os anos”.

Também participaram do debate João José Prieto Flávio, gerente do Sistema OCB, e Fábio Guerra, head de Pesquisa e Conhecimento da Meridiana, ambos em defesa de visão de longo prazo e maior integração entre os agentes do setor. A mediação ficou a cargo de Gláucio Nogueira Toyama, presidente da Comissão de Seguro Rural da FenSeg, que resumiu o ponto de convergência do encontro: “O seguro agrícola é fundamental e precisa ser tratado como parte de um ecossistema mais amplo”.

O recado deixado em Brasília foi direto: o agronegócio cresceu, mudou a forma de se financiar e ficou mais exposto ao risco, mas o seguro rural ainda não acompanhou essa transformação. Sem uma base mais sólida de proteção, a conta continua reaparecendo em renegociações, incerteza e perda de competitividade no campo.

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