Novo mecanismo de arrecadação muda a lógica do recebimento e setores como comércio e construção civil estão entre os mais expostos
As empresas brasileiras estão acostumadas a receber primeiro e pagar imposto depois. A Reforma Tributária vai mudar essa ordem e o impacto direto é no caixa.
O novo modelo se chama split payment. A partir de 2027, quando uma venda for realizada, o valor dos tributos será retido automaticamente no momento do pagamento, antes de qualquer centavo chegar à conta da empresa. Segundo estimativas da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), essa antecipação pode reduzir o capital de giro em até 15%.
Para entender o que muda: numa venda de R$1.000 com carga tributária de 28%, hoje o vendedor recebe os R$ 1.000 integrais e depois separa R$ 280 para o governo. Com o split payment, essa divisão acontece no ato, R$ 720 vão para o vendedor, R$ 280 seguem direto ao Fisco. O dinheiro que antes transitava pelo caixa da empresa deixa de existir para ela.
“O split payment significa que as empresas deixam de contar com o valor total das vendas para compor seu fluxo de caixa e precisam se preparar para operar com menos liquidez desde o início”, afirma Marcos Jr., CEO da Invent Software. Ele alerta que setores com margens apertadas, como comércio e construção civil, devem sentir mais o impacto.
O sistema será aplicado ao IBS e à CBS, novos tributos que substituem ICMS, ISS, IPI, PIS e Cofins. A transição começa antes do previsto: em 2026, empresas já entram num projeto-piloto com alíquotas simbólicas. Em 2027, o modelo poderá ser adotado de forma facultativa em operações B2B, com expansão prevista para o varejo, onde será obrigatório.
O modelo não é inédito no mundo. Itália adotou mecanismo similar no setor público e registrou queda na sonegação. Mas há casos em que a experiência não foi bem-sucedida, Bulgária e Romênia abandonaram o sistema após enfrentar complexidades operacionais. A aposta do Brasil é que a infraestrutura tecnológica já consolidada (NF-e, NFC-e e Pix) favorece uma implementação mais sólida.
“O split payment aproxima o Brasil de práticas adotadas em países que utilizam o IVA e pode contribuir para um ambiente de negócios mais transparente. O sucesso dependerá da capacidade das empresas de se preparar para um modelo que antecipa a saída do dinheiro e exige mais disciplina financeira”, conclui Marcos Jr.



