Pesquisa revela avanço acelerado desses produtos na dieta dos brasileiros, enquanto especialistas alertam para danos metabólicos, inflamatórios e maior risco de câncer.
Enquanto as famílias brasileiras aproveitam o período de férias, com seu típico aumento no consumo alimentar fora de casa e a quebra da rotina, um dado ressalta a urgência de debater a qualidade da alimentação no país. De acordo com uma pesquisa recente publicada na revista científica The Lancet o consumo de alimentos ultraprocessados mais que dobrou no Brasil desde os anos 80, saltando de 10% para 23%.
Segundo o estudo, esse crescimento não é exclusivo do Brasil. Em um levantamento com 93 países, o aumento do consumo de ultraprocessados se repetiu em praticamente todos, com exceção do Reino Unido, onde se manteve estável em 50%. Já nos Estados Unidos, esses produtos representam mais de 60 % da alimentação.
A nutróloga da Afya Educação Médica de Montes Claros, Dra Juliana Couto Guimarães, explica que os ultraprocessados passaram a ocupar um espaço que antes pertencia às refeições feitas em casa, sendo muitas vezes apresentados como soluções práticas para a falta de tempo. Além disso, mudanças socioculturais como a diminuição das refeições em família e a maior presença de fast-foods, contribuíram para que esses alimentos se tornassem parte da rotina.
“Embora pareçam facilitadores do dia a dia, os ultraprocessados têm um custo biológico significativo quando consumidos com frequência. Eles são formulados com excesso de açúcar, gordura de baixa qualidade, sódio e aditivos que tornam o alimento mais palatável, mas menos nutritivo. Com o tempo, esse padrão alimentar favorece ganho de peso, resistência à insulina, pré-diabetes e diabetes tipo 2. Também aumenta o risco de hipertensão, dislipidemias e doenças cardiovasculares, problemas que hoje representam grande parte das internações no país”.
Uma pesquisa do projeto “Monitoramento da rotulagem de alimentos no Brasil”, desenvolvido pelo Ministério da Saúde em parceria com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), revela a dimensão do problema. Entre os 39 mil alimentos e bebidas embalados lançados no mercado nacional entre novembro de 2020 e novembro de 2024, 62% são ultraprocessados, enquanto apenas 18,4% se enquadram na categoria de in naturaou minimamente processados.
Dra Juliana Couto ressalta que esses alimentos afetam negativamente o microbioma intestinal, ampliando processos inflamatórios e já foram associados a maior risco de transtornos depressivos e ansiosos, além de alguns tipos de câncer. “O equilíbrio está muito menos na busca por perfeição e muito mais em desenvolver estratégias simples que funcionem na rotina real. Planejar a semana, mesmo que de forma básica, já transforma a qualidade da alimentação: preparar porções de arroz, feijão, legumes e proteínas, deixar vegetais lavados e frutas fáceis de consumir e montar marmitas ou bases culinárias facilita muito as escolhas do dia a dia”, complementa a especialista da Afya Educação Médica de Montes Claros.
Aumento do risco de câncer
Um novo estudo publicado na revista científica Thorax, conduzido pela Universidade de Chongqing, na China, traz evidências ainda mais contundentes sobre o elo entre ultraprocessados e doenças crônicas. A pesquisa acompanhou mais de 100 mil adultos nos Estados Unidos ao longo de 12 anos e observou que os participantes que mais consumiam alimentos ultraprocessados apresentaram um risco 41% maior de desenvolver câncer de pulmão em comparação com aqueles que consumiam menos desses produtos.
O oncologista da Afya Montes Claros, Dr Levindo Tadeu, comenta que o mecanismo biológico que explica como alimentos ultraprocessados podem causar câncer envolve diversos fatores interligados. “Esses produtos danificam a barreira epitelial do intestino e alteram a microbiota, reduzindo bactérias benéficas e protetoras enquanto favorecem patobiontes pró-inflamatórios, o que gera um ambiente de inflamação crônica propício à carcinogênese.”
Os resultados se mostraram ainda mais alarmantes ao analisar subtipos específicos da doença. A incidência de carcinoma de pequenas células, geralmente associado ao tabagismo, aumentou 44%, enquanto o carcinoma de não pequenas células apresentou elevação de 37% entre os maiores consumidores desses alimentos. “Esses produtos promovem a disbiose com predomínio de bactérias tóxicas e podem causar danos diretos ao DNA por compostos nocivos, como aminas heterocíclicas e hidrocarbonetos, além de atuarem por meio de carcinogênese direta associada às acrilamidas, presentes em alimentos como batatas fritas e biscoitos. Os ultraprocessados contribuem para a redução do volume fecal e o prolongamento do trânsito intestinal, e sua alta densidade energética favorece hiperinsulinemia e resistência à insulina. Somam-se a isso os contaminantes tóxicos das embalagens, como ftalatos e bisfenol”, conclui o oncologista da Afya Montes Claros.
