Janeiro Roxo: Brasil ocupa segunda posição em novos casos de hanseníase no mundo

Imagem gerada por Inteligência Artificial
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Brasil concentra mais de 90% dos casos das Américas, com alta taxa de deformidades por diagnóstico tardio. Médicos alertam para a importância de procurar ajuda aos primeiros sinais na pele

Dedicado à conscientização e combate à hanseníase, o Janeiro Roxo reforça a urgência de enfrentar essa doença milenar que, apesar de ter cura e tratamento eficazes, continua sendo um grave problema de saúde pública no Brasil. A campanha ganha relevância com os dados mais recentes da OMS que colocam o país entre os três com maior número de novos casos no mundo, junto da Índia e da Indonésia, responsáveis por quase 80% das notificações globais.

Embora o cenário global apresente tendência de queda, com 172.717 novos casos identificados em 2024, representando uma redução de 5,5% em relação ao ano anterior, o Brasil notificou 22.129 novos casos, mantendo-se como o segundo país com maior número absoluto de registros, atrás apenas da Índia. Houve uma discreta redução de 2,8% em comparação com 2023, quando foram registrados 22.773 casos.

O infectologista da Afya São João Del Rei, Dr Américo Calzavara Neto, comenta que a persistência da doença no Brasil está fortemente ligada a vários fatores, como pobreza, habitação precária, aglomeração domiciliar, baixa escolaridade e desigualdade social.

 “O período de incubação longo para quem está com a doença é em média de 2 a 7 anos. Isso faz com que muitos casos atuais reflitam cadeias de transmissão estabelecidas há anos, especialmente em famílias com casos não tratados ou diagnosticados tardiamente. Apesar da cobertura da Atenção Primária, ainda há subdiagnóstico devido à falta de treinamento de profissionais, rotatividade de equipes e dificuldade em reconhecer as formas iniciais, muitas vezes discretas, resultando em maior número de casos com lesões neurais avançadas”.

Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), em 2023, mais de 90% dos casos notificados no continente ocorreram em território brasileiro. O segundo ponto de alerta é o diagnóstico tardio, avaliado pelo Grau 2 de Incapacidade (G2D) no momento da detecção. O Brasil registrou 2.236 novos casos com incapacidade grave em 2024, representando mais de 10% do total de novos diagnósticos no país, percentual quase o dobro da média global de 5,3%. 

“O Grau 2 de Incapacidade representa deformidades visíveis, como úlceras tróficas, retrações, amputações, mão em garra, pé caído e cegueira, sendo um indicador sensível de diagnóstico tardio. Além disso, medo, preconceito e desinformação fazem com que muitas pessoas demorem a procurar atendimento, escondam as lesões ou abandonem o tratamento. Por fim, a hanseníase exige uma rede capaz de oferecer diagnóstico dermatoneurológico, poliquimioterapia (MDT), manejo de reações e reabilitação, mas em muitos municípios esses serviços são fragmentados ou concentrados em poucos pontos de referência, dificultando o acesso oportuno”, esclarece o infectologista da Afya São João Del Rei.

Sinais na pele e exames preventivos

Identificar a hanseníase precocemente é fundamental para evitar complicações e reduzir a transmissão da doença. Observar mudanças na pele e realizar exames preventivos permite detectar sinais iniciais, muitas vezes discretos, garantindo tratamento rápido e prevenindo deformidades graves. 

A dermatologista da Afya Educação Médica de Belo Horizonte, Dra Maria de Fátima Maklouf Amorim, informa que os sinais cutâneos mais precoces da hanseníase incluem manchas claras ou brancas, geralmente acompanhadas de dormência ou perda de sensibilidade local. “É importante observar a ausência de sensibilidade, mesmo que não haja manchas visíveis. Nas áreas afetadas, pode ocorrer também ausência de pelos ou redução da sudorese. A falta de coceira é outra característica relevante. Qualquer mancha com perda de sensibilidade deve ser avaliada por um médico. Em fases mais avançadas, podem surgir manchas ou nódulos avermelhados”.

De acordo com a especialista, algumas condições de pele podem ser confundidas com a hanseníase, como infecções fúngicas (como o “pano branco”), pele seca, alterações cutâneas na infância ou adolescência e até tumores, como o linfoma cutâneo. O diagnóstico correto depende de exame médico adequado, que pode incluir testes de sensibilidade ou biópsia.

“O diagnóstico da hanseníase baseia-se no exame clínico das lesões de pele e em testes de sensibilidade, que avaliam a perda de percepção de calor e frio, como o teste com algodão e éter ou álcool, o teste da dor com agulha e o teste com fios (monofilamentos) para verificar a sensibilidade tátil. A palpação dos nervos também é fundamental para identificar espessamentos. Outros exames podem auxiliar no diagnóstico, como o Teste Rápido (TR) para anticorpos IgM, a baciloscopia (pesquisa de bacilos em linfa) e, quando houver dúvida, a biópsia”, conclui a dermatologista da Afya Belo Horizonte.

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