Durante coletiva no Seminário LIDE Energia / Eletromobilidade, prefeito de São Paulo apontou soluções para gargalos de recarga da frota elétrica, citou a China como referência e voltou a endurecer o discurso contra a Enel, cobrando agilidade do governo federal e da Aneel
Em coletiva de imprensa realizada nesta terça-feira (24), durante o Seminário LIDE Energia / Eletromobilidade, na Casa LIDE, em São Paulo, o prefeito Ricardo Nunes afirmou que a capital pode superar parte dos gargalos de infraestrutura para a eletromobilidade com o uso de sistemas de baterias estacionárias (BESS), criticou novamente a atuação da Enel na cidade e cobrou celeridade no processo de análise sobre a concessão da distribuidora.
Ao ser questionado sobre as dificuldades no carregamento da frota elétrica, Nunes destacou que a adoção de BESS (sistema que comparou a um “power bank” de grande porte) pode ajudar a reduzir os entraves operacionais e de investimento. “Eu acho que essa questão do carregamento com a colocação da BESS, é como se fosse um power bank, são baterias grandes. Acho que a gente consegue resolver, superar esse problema com essa colocação desse BESS, que são grandes baterias que armazenam energia e depois carregam os ônibus em sete minutos”, revelou.
Segundo o prefeito, a alternativa também pode reduzir custos para os concessionários, ao diminuir a necessidade de investimentos iniciais mais pesados em infraestrutura. “Algumas empresas têm colocado a possibilidade de se fazer essa colocação das baterias sem o CAPEX, portanto o concessionário pega essas baterias e vai só ter o custo de operação e ainda adquirido do mercado livre”, compartilhou.
Apesar disso, Nunes reconheceu dificuldades na conexão elétrica para expansão da infraestrutura de recarga e voltou a mencionar a concessionária de energia. “Realmente ainda existe uma dificuldade com relação à questão da ligação de energia por parte da Enel, é muito caro a extensão que eles têm cobrado para levar isso e a falta de estrutura”, apontou.
China como referência para eletrificação e qualidade do ar
Nunes também citou a experiência chinesa como exemplo prático de transformação urbana com eletrificação da frota de ônibus, mencionando visita realizada ao país. “Foi uma viagem muito importante, por exemplo, para verificar a questão dos BESS lá na China que utilizam bastante”, mencionou.
O prefeito relatou que ouviu relatos sobre a melhora da qualidade do ar em cidades chinesas após a substituição de veículos a diesel por elétricos. “Eles me comentavam que você tinha o céu da China não tão claro alguns anos atrás e hoje você tem várias cidades com 100% dos ônibus elétricos, melhorou muito a qualidade do ar”, acrescentou.
Para ele, o caso chinês mostra que a descarbonização no transporte público é viável em larga escala. “A China foi uma grande impulsionadora de tudo isso, demonstrou que é possível, muita gente falava que não era”, declarou, citando Xangai como exemplo de cidade com frota totalmente eletrificada.
Críticas à Enel e ataque à capacidade operacional da concessionária
Em outro momento da coletiva, Ricardo Nunes elevou o tom ao comentar a atuação da Enel em São Paulo, retomando críticas recentes e associando o tema à necessidade de uma infraestrutura compatível com o crescimento da capital. “São 5,8 milhões de clientes, de unidades que eles atendem aqui na cidade de São Paulo. Dizer que nem Jesus Cristo resolve, então acho que ele está dizendo o seguinte: ‘olha, eu não tenho realmente capacidade de fazer e de permanecer no contrato’”, disse.
O prefeito classificou como “superado” o debate sobre a capacidade da distribuidora de atender a cidade. “Acho que esse tema já está superado, acho que está mais do que demonstrado que, infelizmente, [a Enel] não tem a capacidade de atender a população aqui em São Paulo”, diagnosticou.
Nunes também mencionou o impacto de interrupções no fornecimento de energia e citou números da crise de dezembro do ano passado. “Como foi 4,4 milhões de pessoas sem energia na crise de 10 de dezembro de 2025, como é que você pode ter uma empresa que oferece esse tipo de serviço?”, questionou.
Cobrança ao governo federal e à Aneel por “morosidade”
Perguntado sobre o andamento do processo relacionado à concessão, o prefeito demonstrou que vê lentidão na tramitação e cobrou ações mais rápidas do governo federal e da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). “Eu vou te dizer que está muito lento o processo. A gente precisa estar cobrando”, sublinhou.
Nunes citou ainda que o governador Tarcísio de Freitas enviou ofício cobrando celeridade e reforçou que a responsabilidade pela concessão e fiscalização é federal. “O governo federal precisa entender a sua responsabilidade. Ele que é o órgão que tem a concessão, regulação e fiscalização, é necessário que ele tenha agilidade”, indicou.
O prefeito demonstrou preocupação com a proximidade de um novo ciclo de chuvas e com a possibilidade de a situação permanecer sem solução. “Daqui a pouco a gente vai chegar de novo (…) em novembro, no outro período, e eles vão resolver essa situação?”, questionou.
Também pediu pressão pública e da imprensa sobre o andamento do caso: “Eu acho que é importante nós, como sociedade, vocês, como imprensa, cobrarmos”, convocou.
Confiança na caducidade, mas com ressalvas
Ao ser questionado se confia na decretação de caducidade ou extinção do contrato, Nunes comentou que ainda acredita nas instituições, embora tenha demonstrado incômodo com rumores de interferência política. “Eu confio porque eu ainda creio que nós estamos em um país que defende as suas instituições, os comportamentos republicanos”, projetou.
Na sequência, mencionou boatos sobre possível influência na Aneel, mas citou que a conclusão dependerá da postura da agência. “O que a gente tem escutado são ‘zumzumzum’ de que existe alguma interferência, influência na Agência Nacional de Energia Elétrica, que eu não acredito e se confirmará ou não com a atitude deles”, apontou.
Encerrando a resposta, voltou a pressionar pela saída da distribuidora da capital: “A gente precisa tirar essa empresa daqui”, finalizou.
Debate sobre eletromobilidade ganha peso estratégico
A fala de Ricardo Nunes ocorreu no contexto de um seminário voltado à discussão dos rumos da mobilidade elétrica, infraestrutura, inovação tecnológica e transição energética no Brasil, reunindo representantes do poder público, empresas e entidades setoriais. O evento teve curadoria de Jean Paul Prates, head do LIDE Energia.
