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CNseg revisa projeções para 2026: mercado segurador deve crescer 5,7%, mas participação no PIB recua pela primeira vez desde a pandemia e põe em xeque meta do PDMS

CNseg revisa projeções para 2026: mercado segurador deve crescer 5,7%, mas participação no PIB recua pela primeira vez desde a pandemia e põe em xeque meta do PDMS / Foto: Freepik CNseg revisa projeções para 2026: mercado segurador deve crescer 5,7%, mas participação no PIB recua pela primeira vez desde a pandemia e põe em xeque meta do PDMS / Foto: Freepik
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Impacto do IOF sobre previdência já soma R$ 50 bilhões em captações perdidas; guerra no Oriente Médio pressiona Selic e adiciona incerteza ao cenário

A Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) divulgou nesta terça-feira (15) a revisão das projeções de desempenho do mercado segurador para 2026. O cenário geral permanece positivo, com crescimento estimado de 5,7% na arrecadação total, que deve alcançar R$ 808 bilhões. Mas um dado acendeu o alerta: a participação do setor no PIB, que vinha em trajetória de recuperação, deve recuar de 6,0% em 2025 para 5,8% neste ano, o primeiro recuo desde a pandemia, distanciando-se ainda mais da meta de 10% estabelecida pelo Plano de Desenvolvimento do Mercado de Seguros (PDMS) para 2030.

“É um cenário positivo ainda, um crescimento de 5,7%, consideravelmente acima da inflação”, afirmou Dyogo Oliveira, presidente da CNseg, durante coletiva realizada por videoconferência desde Casablanca, no Marrocos. “A única exceção é a questão do IOF na previdência”.

A queda na participação do setor no PIB é inédita fora de contextos de crise. O indicador havia atingido seu pico em 2019 e 2020, quando chegou a 6,6%, recuou com os efeitos da pandemia, e vinha se recuperando gradualmente até atingir 6,4% em 2024 e 6,0% em 2025. Segundo Dyogo Oliveira, a reversão deve levar a entidade a revisar o PDMS. “Com essa redução, provavelmente as estatísticas que a gente tinha projetado lá já não são mais viáveis”, admitiu.

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IOF sobre previdência: R$ 50 bilhões perdidos, R$ 106 milhões arrecadados

O principal ponto de atenção da revisão é o segmento de previdência aberta, que continua sofrendo os efeitos da mudança na tributação do IOF implementada em 2025. Os números apresentados pela CNseg dimensionam a extensão do estrago: em apenas seis meses de vigência do imposto, o setor perdeu mais de R$ 50 bilhões em captações. A captação líquida do VGBL desabou 94% em relação a 2024, e o segmento registrou captação líquida negativa em todos os meses em que o IOF esteve em vigor. 2025 foi, segundo a entidade, o pior resultado da série histórica da previdência complementar.

As entradas brutas de VGBL, que eram projetadas em R$ 190 bilhões para 2025, fecharam o ano em apenas R$ 139 bilhões. Enquanto isso, o estoque em instrumentos isentos de imposto de renda, como LCIs e LCAs, cresceu 21%, com R$ 190 bilhões a mais em 2025 e uma captação líquida estimada em R$ 64 bilhões. A contrapartida para o governo foi irrisória: a CNseg estima que a arrecadação de IOF sobre previdência totalizou apenas R$ 106 milhões no período. “É um número completamente irrelevante para as contas públicas, mas causa um enorme prejuízo, uma distorção enorme pro setor, mas principalmente para as famílias que querem constituir a sua previdência”, criticou Dyogo Oliveira.

No ano passado, as captações totais de previdência despencaram 19,9% em relação a 2024, caindo de cerca de R$ 185 bilhões para R$ 155,56 bilhões. Para 2026, a CNseg projeta nova redução, de 4,4%, o que representa um retrocesso de seis anos em termos nominais de arrecadação.

O presidente da CNseg fez questão de rebater o argumento de que a previdência complementar seria um instrumento voltado a pessoas de alta renda. Dados apresentados na coletiva mostram que 96,5% dos participantes de VGBL possuem reserva acumulada inferior a R$ 1 milhão, com uma mediana de contribuições anuais de R$ 7.855. Apenas 0,1% dos participantes acumulam reservas superiores a R$ 10 milhões. “Claramente a previdência no Brasil é um instrumento de classe média, de classe média média e classe média baixa”, afirmou. “Isso não pode se confundir de modo algum com a ideia de super ricos”.

Dyogo Oliveira explicou que o concorrente direto da previdência são os produtos isentos de imposto de renda, de curtíssimo prazo, como LCIs e LCAs. “Do ponto de vista de aplicação financeira, é um título de curtíssimo prazo, onde as pessoas têm isenção completa de imposto de renda. Então, o que aconteceu após a adoção do IOF foi que as pessoas deixaram de aplicar um volume substancial”, disse. Segundo ele, o próprio governo sai prejudicado, porque os recursos que antes eram captados pela previdência e aplicados em títulos públicos de longo prazo migraram para produtos em que não há nenhuma arrecadação tributária.

Na projeção anterior, feita em dezembro de 2025, a CNseg sequer havia publicado estimativas para vida e previdência. “Naquele momento, o impacto do IOF ainda estava muito recente e a gente não conseguia estimar o comportamento do mercado”, explicou.

Visão geral: mercado sem saúde cresce 2,9%

Excluindo o segmento de saúde, o mercado segurador deve movimentar R$ 427,3 bilhões em valores nominais, com crescimento de 2,9%. Os seguros de danos e responsabilidades, com arrecadação de R$ 144,54 bilhões em 2025, devem avançar 7,4%, abaixo dos 8,5% projetados anteriormente. A capitalização, com R$ 33,92 bilhões arrecadados no ano anterior, deve crescer 6,3%, também abaixo da estimativa anterior de 8,5%.

O peso da previdência contamina toda a categoria de coberturas de pessoas, que acumula arrecadação de R$ 236,60 bilhões e projeta retração de 0,4% neste ano. Dentro desse grupo, porém, os seguros de pessoas (vida, prestamista e viagem) seguem em alta, com expectativa de crescimento de 7,4%.

Saúde suplementar: projeção sobe de 7,6% para 9%

A saúde suplementar foi o segmento com a maior revisão positiva: a projeção saltou de 7,6% para 9,0%, com base na arrecadação de R$ 349,41 bilhões em 2025. É o segmento que mais puxa o crescimento agregado do mercado.

O setor ainda se recupera dos impactos adversos das crises econômica e sanitária. A base de beneficiários registrou alta de 1,9% entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2026, com a taxa de cobertura populacional avançando 0,4 ponto percentual no mesmo período. A sinistralidade, um dos indicadores mais sensíveis para a sustentabilidade do segmento, vem se estabilizando: recuou de 84% em dezembro de 2024 para 82% em dezembro de 2025, com perspectiva de acomodação em torno de 80% ao longo de 2026.

Para manter a sustentabilidade, o setor aposta em três frentes: o combate a fraudes, com investimentos em tecnologia e aumento das comunicações às autoridades de investigação; a ampliação de produtos com coparticipação, buscando maior conscientização dos beneficiários sobre o uso dos serviços; e a adoção de modelos alternativos de remuneração de prestadores, com foco na redução de desperdícios e na manutenção da qualidade do atendimento.

Seguro auto: crescimento de 7,1%, mas elétricos desafiam seguradoras

O seguro automóvel projeta crescimento de 7,1% para 2026, sustentado pelo aumento nos emplacamentos. Em 2025, foram registrados 2,5 milhões de veículos novos, alta de 2,6% sobre 2024, com destaque para os híbridos e elétricos, que avançaram 61% e somaram 285 mil unidades. Para 2026, a Fenabrave projeta alta de 3,0% nos emplacamentos, chegando a 2,6 milhões de veículos, enquanto a Anfavea estima avanço de 2,8% para veículos leves. O Programa Carro Sustentável, que reduziu o IPI para modelos compactos 1.0 flex, deve continuar impulsionando as vendas.

O avanço dos veículos eletrificados, no entanto, representa um desafio para o setor. Segundo Dyogo Oliveira, os custos de reparo desses veículos são significativamente superiores aos dos modelos a combustão. “Danificam elementos elétricos muito sensíveis do veículo, que são extremamente caros de repor, e isso impacta bastante”, afirmou. As seguradoras têm desenvolvido projetos e buscado dados sobre o tema para precificar adequadamente os riscos.

A sinistralidade do segmento permanece em patamar considerado saudável, passando de 59,4% em 2024 para 60,1% em 2025. “60% é um nível bastante saudável, que permite o setor cobrir todos os custos de comercialização, de funcionamento, toda a parte de tributos”, avaliou o presidente da CNseg.

Outro fenômeno que o setor acompanha com atenção é a mudança na composição das vendas de veículos. A participação das vendas diretas, normalmente destinadas a locadoras e grandes frotas, cresceu de cerca de 30% em 2018 para quase 50% nos últimos anos, chegando a superar o varejo em alguns meses de 2025. No início de 2026, o varejo recuperou participação e responde por 58,7% das vendas, contra 41,3% das vendas diretas, mas Dyogo Oliveira não acredita que a reversão seja permanente. “A tendência do mercado de automóveis no Brasil tem sido de crescer a participação das frotas, com a uberização, com as pessoas evitando ter carro próprio”, analisou. O impacto para o setor é relevante: frotas frequentemente contratam apólices diferenciadas, por frota, ou optam por uma espécie de autosseguro.

Habitacional cresce 12,8% puxado pelo Minha Casa Minha Vida

O seguro habitacional é um dos destaques positivos, com projeção de crescimento de 12,8%, impulsionado pela expansão do crédito imobiliário e pelo programa Minha Casa Minha Vida. Os dados do mercado imobiliário sustentam o otimismo: entre janeiro e novembro de 2025, os lançamentos de imóveis novos cresceram 30,1%, totalizando 196,7 mil unidades, com alta de 35,1% nas unidades vinculadas ao Minha Casa Minha Vida (170,6 mil). As vendas de imóveis avançaram 3,1% (192,4 mil unidades e R$ 64,8 bilhões), e as unidades vendidas pelo programa habitacional subiram 11,2%, alcançando 154,4 mil e R$ 36,4 bilhões em volume de vendas.

O déficit habitacional brasileiro, estimado em mais de 7 milhões de unidades, continua sendo um propulsor estrutural de demanda. Dyogo Oliveira fez questão de registrar uma curiosidade sobre o dado. “Faz uns 40 anos que eu acompanho esse número e ele era sempre 7 milhões, 6 milhões, 7 milhões, nunca diminui. Só no Minha Casa Minha Vida acho que já foram feitos 10 milhões de casas e mesmo assim o déficit habitacional não diminui”, comentou. A perspectiva de redução da Selic ao longo do ano pode dar fôlego adicional ao crédito imobiliário e, por consequência, ao seguro habitacional.

Transportes: novo sistema da ANTT deve impulsionar demanda

O segmento de seguros de transportes projeta crescimento de 8,1%, dividido entre embarcador nacional (8,9%), embarcador internacional (5,8%) e transportador (8,3%). A expectativa positiva está ligada não apenas ao fluxo de cargas, mas também à implantação de um novo sistema de controle pela ANTT, que deve aprimorar a fiscalização do seguro de carga no Brasil. “A gente está com uma expectativa de que isso vai gerar um aumento de demanda pelo RCV em 2026”, afirmou Dyogo Oliveira. A demanda por bens de consumo segue firme, embora as expectativas para a safra agrícola sejam mais fracas.

Seguro rural: governo corta recursos e mercado encolhe

O seguro rural é a outra nota negativa das projeções, ao lado da previdência. O ramo projeta queda de 3,9% em 2026, depois de já ter recuado 8,8% em 2025. A causa, segundo a CNseg, é a redução dos recursos de subvenção liberados pelo governo federal por meio do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR).

Em 2024, o valor da subvenção havia sido de R$ 1,05 bilhão. Em 2025, o governo liberou apenas R$ 565 milhões, uma queda de 46%. A Lei Orçamentária Anual (LOA) para 2026 prevê R$ 1 bilhão, mas a CNseg ainda não tem segurança sobre os valores que serão efetivamente desembolsados. “É novamente uma interferência do governo federal que tem sido negativa em termos de resultado do setor”, criticou Dyogo Oliveira.

A trajetória histórica da subvenção mostra oscilações bruscas: o valor saiu de R$ 31 milhões em 2006, cresceu continuamente até atingir R$ 1,15 bilhão em 2021, e desde então vem em tendência de queda, com exceção de 2024.

Seguros de pessoas: vida cresce 11,7%, mas endividamento preocupa

O segmento de seguros de pessoas projeta crescimento de 7,4%, puxado pelo desempenho do seguro de vida (11,7%), do seguro viagem (12,2%) e do prestamista (4,3%). O seguro de vida vem em trajetória de expansão desde a pandemia, com crescimento em diferentes faixas de preço, tanto em produtos mais acessíveis quanto em coberturas mais sofisticadas.

A preocupação, segundo Dyogo Oliveira, vem do endividamento das famílias brasileiras. Dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC) apresentados na coletiva mostram que o percentual de famílias endividadas deve atingir 80,8% no primeiro semestre de 2026, enquanto a fatia com dívidas em atraso gira em torno de 29,8%. “Praticamente 30% das famílias têm alguma dívida em atraso. São seguros que entram no orçamento e as pessoas têm o orçamento cada vez mais apertado”, alertou.

O aumento do endividamento, combinado com a elevação da inadimplência e juros altos que encarecem o estoque de dívidas, configura o que a CNseg classifica como um ciclo perigoso para os seguros de pessoas. O governo federal tem preparado medidas para facilitar a renegociação de dívidas, mas o cenário exige cautela.

Massificados e demais destaques

Entre os ramos de danos e responsabilidades, os seguros massificados, que incluem seguro empresarial, residencial e de condomínio, projetam crescimento de 11,0%. A inadimplência crescente, no entanto, pode aumentar o cancelamento de contratos e dificultar a expansão das empresas do segmento.

Os seguros de riscos de engenharia projetam retração de 6,4%, mas o número é explicado por uma operação atípica de 2025 que distorceu a base de comparação. Sem revelar o nome da empresa, Dyogo Oliveira indicou tratar-se de uma emissão relacionada a uma plataforma de petróleo. “Quando a gente olha comparado com 2024, a gente teria ainda esse ano um valor de crescimento bastante significativo”, ponderou. O momento da construção civil no Brasil, com expansão de concessões, PPPs e obras do governo, sustenta perspectivas favoráveis para o ramo.

A responsabilidade civil projeta crescimento de 4,5%, abaixo da estimativa anterior de 9,6%. A FenSeg espera um ano mais “soft” para o ramo, embora a Nova Lei de Seguros e a atualização do Código Civil possam gerar impacto positivo. Outros destaques incluem marítimos e aeronáuticos (14,0%), grandes riscos (13,9%), fiança locatícia (14,7%) e crédito (13,7%).

Guerra no Oriente Médio: risco no horizonte

O cenário macroeconômico da CNseg considera crescimento do PIB de 1,95%, inflação (IPCA) de 4,08%, câmbio a R$ 5,38 e Selic encerrando o ano em 12,50%, acima dos 12,00% projetados em novembro de 2025. A projeção de PIB está um pouco acima da mediana do mercado (Focus), que indicava 1,82% na data da revisão.

A revisão da taxa de juros está diretamente ligada à crise no Oriente Médio. Dyogo Oliveira apontou que o conflito afeta o preço do petróleo, com repercussões em cadeia sobre inflação, custo de energia e, consequentemente, sobre a trajetória da Selic. “Tem toda uma intrincada cadeia de conexões entre a guerra no Golfo e todas as implicações econômicas”, disse. “Vai depender de quanto tempo vai durar, se terão rotas alternativas, qual é o impacto em preço de petróleo”.

Se a crise se prolongar, os efeitos sobre a atividade econômica podem se intensificar no segundo semestre. “Pode ter também algum impacto em atividade ao longo do segundo semestre”, reconheceu o presidente da CNseg, embora tenha ponderado que, por enquanto, as estimativas gerais se mantêm.

O mercado segurador brasileiro encerra, portanto, um ciclo de revisão com luzes e sombras. De um lado, a maioria dos ramos sustenta crescimento acima da inflação, com destaques para saúde (9%), habitacional (12,8%), vida (11,7%) e massificados (11%). De outro, o impacto do IOF sobre a previdência, o corte de subvenções ao seguro rural e a pressão do endividamento das famílias configuram desafios estruturais. Com a participação no PIB em retrocesso e R$ 50 bilhões em captações de previdência que simplesmente evaporaram, a distância entre o mercado real e a ambição do PDMS nunca foi tão evidente.

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